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Frases e Pensamentos de Padre Dehon

Sobre sua vida

Sua mãe, Estefânia

Seu pai, Júlio Dehon

Vocação contrariada

Formação

Diretório íntimo

Neo-sacerdote

Os jovens

O mundo em que Dehon viveu

A sociologia-política de Leão Dehon

A Igreja com que Dehon sonhou

Os novos padres, segundo Leão Dehon

A congregação dos padres SCJ

A reparação: seu ideal

Dehon e o "reino do Coração de Jesus"

Três anedotas que revelam quem ele era

Seus últimos dias

 

 

SUA MÃE, ESTEFANIA

 

1.  É minha mãe que domina as minhas mais longínquas recordações. Não a deixava nunca. Enquanto meu irmão ia e vinha com meu pai, participando do seu gosto pela cultura e pela equitação, eu preferia ficar em casa, seguindo, passo a passo, minha mãe.

 

2. Minha mãe foi para mim um dos maiores dons de Deus. Um instrumento de muitas graças. Que dignidade de vida, que fé, que virtude, que coração tinha ela!

Ela domina minhas lembranças mais distantes. Não poderia deixar de ressaltar sua presença em minha infância. Em casa, eu a acompanhava passo a passo. Sujeitei-me à influência constante de minha mãe e, apesar de minhas travessuras, pouco a pouco despertei para a piedade e para as coisas religiosas.

 

SEU PAI, JÚLIO DEHON

 

3. Meu pai, a bem da verdade, não tinha uma educação verdadeiramente cristã. Conservava a educação de sua família: o espírito de honestidade e de bondade, que caracterizou toda a sua vida. Perdeu, no colégio, a prática da vida cristã, mas tinha por ela um grande respeito e admiração. Reconheço o papel decisivo de sua ternura e afeição paternais para comigo, no concernente ao desenvolvimento de minha educação e, mesmo, à vida cristã. Sua lembrança me é doce; me completa e me reconforta.

 

VOCAÇÃO CONTRARIADA

 

4. Tive com os meus pais alguns conflitos bem dolorosos. Meu pai sofria muito com minha decisão. Não compreendia nada. Seus castelos haviam-se desmoronado. Minha mãe, com quem eu havia contado, e que tinha feito tudo para me ajudar, acabou por me abandonar completamente. Era piedosa e me queria piedoso, mas o sacerdócio a assustava. Parecia a ela que eu não seria mais da família e, para ela, eu estaria perdido.

 

5. Eu sentia que meu coração estava explodindo. Já não mais conseguia resistir a tantos assaltos contra minha vocação. Houve momentos em que cheguei a ser duro diante de meus pais. Era preciso!

 

6. Eu lhes disse que eu era maior e que tinha o direito de escolher, porque era livre. Enfim, acabaram por concordar. Mas as cenas de lágrimas se renovariam amiúde.

 

FORMAÇÃO

Os sonhos de uma juventude

 

7. O ideal da minha vida, o voto que eu formulava com lágrimas nos olhos durante a minha juventude, era o de ser missionário mártir. Meu único ideal é Cristo. Desejo que Jesus me conceda as graças necessárias para a minha salvação e me inflame de grande zelo pela salvação das almas. Quero entregar-me inteiramente a Jesus. Anelo ser religioso, missionário e mártir. Hei de entrar em religião, evidentemente não para ser canonizado, mas para fazer-me santo, com a ajuda divina; para melhor conhecer, amar e servir a Nosso Senhor; para dar a meu sacerdócio de amanhã a atmosfera ideal, em que eu possa expandir-me plenamente.

 

8. Nosso Senhor me fez saborear o espírito de coração, de pobreza e de união com ele. Ele fez tudo. A sua graça me levava e me empurrava.

 

9. Eu procurava a união com Deus. Muitas vezes sob tensão espiritual. Cheguei, algumas vezes, a sentir dor de cabeça, de tanto esforço que fazia para viver plenamente nele.

 

10. Busquei algumas notas dominantes para minha vida: a devoção ao Coração de Jesus, a conformidade à sua vontade, a união com ele e a vida de amor.

 

11. Bem cedo, Nosso Senhor apoderou-se do meu íntimo, e aí se estabeleceu, não obstante minhas mil fraquezas.

 

12. DIRETÓRIO INTIMO

1) Fazer em qualquer momento a vontade de Deus, enquanto me é conhecida,

2) Nas orações, unir-me interiormente a Nosso Senhor.

3) Nas orações, unir-me ao pensamento íntimo do autor da oração.

4) Nas conversas, nunca me entregar inteiramente à natureza, à alegria excessiva, à dor, às paixões; mas sempre guardar os freios na mão e vigiar.

5) Evitar preocupar-me demasiadamente com o futuro incerto.

 

13. Como eu maldiria o colégio onde

vivi interno, se Jesus não me tivesse dado a graça de reparar o que ali se passou comigo, celebrando, mais tarde, na mesma casa o santo sacrifício.

 

14. Vejo claramente hoje: Deus me concedia então, generosamente, o espírito de amor e reparação que é a característica da minha vocação.

 

15. Lembro-me agora, o poderoso auxílio que são as associações para a perseverança no bem e na piedade.

 

16. Devo também muito a essas reuniões, que interessavam ao meu coração, propenso naturalmente à compaixão.

 

17. No futuro, Deus fará de mim aquilo que ele quiser: possa eu receber somente a posição mais humilde e a menos invejada. Para o presente, Deus me pede manifestamente que eu seja um estudante perfeito. Regular o meu trabalho com prudência, moderá-lo com temperança, animá-lo com força e dirigi-lo com fé e caridade. Desconfiar do demônio, que sob a aparência do bem, me faz divagar nas orações, quando considero o meu ministério futuro, ou o chamado a um estado mais perfeito. Tender somente à perfeição do meu estado atual.

 

18. A minha consolação é levar daqui ricos tesouros, como o sacerdócio, a ciência eclesiástica, bons hábitos de vida interior, e aquilo que não se desgasta.

 

19. Recebendo a tonsura, deixei cair na bandeja do eminente prelado, juntamente com meus cabelos, lágrimas abundantes. Eu havia esperado tanto, e tanto lutado para realizar a minha vocação...

 

NEO SACERDOTE

 

20. Eu havia mobiliado meu quarto de maneira um tanto quanto elegante, mas logo me arrependi; e troquei todos os meus móveis por coisas mais simples. Meu pai ficou mal impressionado com isso. Enfim, o importante é que os paroquianos entenderam e julgaram diversamente.

 

21. Não posso viver senão na união com Nosso Senhor. Do contrário, me desoriento e minha vida seria qual navio desorientado.

 

22. Teria tido tantos, tantos favores a mais, se não houvesse dispersado os dons que Deus me tem dado.

 

23. As tentações e as fraquezas me tolheram o ânimo. Nosso Senhor me deu esta firmeza, que não estava na minha natureza. A graça agia assim fortemente em meu coração.

 

24. Tenho o costume de, em viagem,   recitar freqüentemente o rosário.

 

OS JOVENS

 

25. O moço é a mais bela criatura de Deus. É a esperança do porvir. Gosto de orar aos santos jovens, para que protejam a juventude. Os moços são, por assim dizer, flores vivas que comunicam o esplendor de sua primavera e exalam o perfume de seu frescor. Na manhã da vida, todas as flores da alma se abrem aos primeiros raios de sol. Primavera deliciosa que não tem atrás de si nem recriminações, nem remorsos, enquanto a linfa brota, enquanto a esperança, tal qual boa fada, nos envia os seus sorrisos.

 

26. Deus brindou a juventude com todos os elementos que servem para as grandes empresas: entusiasmo, força e generosidade. Ela é, para uma nação, como que a seiva que percorre os ramos de uma grande árvore e que leva às extremidades um verde sempre renascente, ao mesmo tempo conserva, no caule, o vigor e a fecundidade.

 

27. Porque receberam de Deus este dom e são filhos da sua especial predileção, os jovens são alvo dos ataques mais apaixonados do mal. Por isso precisamos ter um carinho dobrado pelos nossos jovens, tanto pelo perigo que correm, como pelo bem que trazem consigo.

 

28. As obras em que a juventude não toma parte estão golpeadas de esterilidade. Mas, porque recebeu de Deus esse dom e essa marca particular de sua predileção, ela é sempre, da parte do espírito do mal, o objeto das mais ferozes tentações e dos ataques mais veementes; pelo que nos deve ser duplamente querida, tanto pelos benefícios que nos traz, como pelo perigo de que a devemos arrancar.

 

29. Unamo-nos, estudemos, trabalhemos. É um delito de lesa-pátria para todos aqueles que têm autoridade, capacidade e dever de apostolado não se empenhar em promover nossa gente.

 

30. O livro e a espada, eis, jovens, o vosso ideal. O estudo e a ação   social, política e apostólica.

 

31. A Igreja vos faz cavaleiros. Honrem o livro e a espada. Sejam a jovem guarda.

 

32. A espada não vos é dada para usá-la com a mesma função de um fuzil, mas para guiar o batalhão à vitória e a proteger todas as liberdades religiosas, políticas e sociais.

 

33. Nossas associações juvenis não passam de círculos de estudo, onde se fazem lindos discursos e conversinhas agradáveis e fúteis... Falar com eloqüência é muito bonito, mas agir com prática é melhor.

 

34. O século XIX descortina aos nossos olhos todas as maravilhas da ciência e da indústria. Todos os progressos materiais. Portanto, quem ousaria prever possíveis catástrofes? Com armas prodigiosas e essas máquinas admiráveis de morte, as nações tornaram-se pagãs e seus governos não esperam mais do que um sinal para se precipitar uns sobre os outros e nos oferecer o terrível espetáculo que Mor. Drumond bem o prevê em La Fin d'un Monde.

 

35. O mundo está posto na concupiscência. Nada mais se respeita. É uma decomposição social que atrai os castigos divinos.

 

O MUNDO EM QUE DEHON VIVEU

 

36. É nesse tipo ,de 'Sociedade podre que as reivindicações dos operários têm fundamento legítimo. O mal contemporâneo vai da indiferença ao ódio. Que progresso enorme fez o ódio a Cristo, depois que foi pronunciada a palavra de Voltaire: esmaguemos essa desgraçada (Igreja).

 

37. Quem não sente uma profunda enfermidade no meio da própria sociedade? Quem não vê os sinais evidentes de desagregação e morte? Nos altos escalões, as autoridades despojadas da auréola de respeito e amor que a religião lhes assegurava e uma força puramente material e brutal a seu serviço. Em baixo, o ódio, a inveja e um furor implacável.

 

38. Lá em cima. um poder sem base sólida, muitas vezes desonrado por abusos gritantes; em baixo, ambições mesquinhas de quem procura abertamente se levantar às custas da ruína social.

 

39. Tudo se desmorona. É em vão que a sabedoria humana tenta conjurar o perigo. Políticos, diplomatas sem Deus e sem religião, depois de um século, acabaram à deriva. Seus tratados são praticamente impotentes para nos salvar. É que. no fundo de todas as questões sociais e políticas. há uma questão divina.

 

40. Apropriando-nos da expressão de um grande doutor não hesitamos em afirmar que a solução de todos os problemas do nosso tempo ainda é Jesus Cristo. "Solutio omnis difficultatis: Christus".

 

41. Não tenho medo algum de acusar a imprensa. como a causa mais ativa dos crimes e suicídios de que se tem notícia cada dia e de os propalar indefinidamente, pelo sensacionalismo que lhes dão, insistindo sobre uma infinidade de detalhes ou dados mais ou menos trágicos ou esdrúxulos. A esperteza e habilidade com que alguns sabem apresentar detalhes odiosos, que deveriam passar silenciados, não respeita nada: nem da família. nem conveniências sociais. No momento em que um jornal pode dar um resumo circunstanciado dos fatos antes de um outro para poder fazer um furo de reportagem – como costumam dizer - fazem-no. Longe de nós o pensamento de que o façam com a condenável intenção de corromper as massas. mas, se eles não sabem o que fazem, de­ veriam pelo menos serem informados de que sua inconcebível irresponsabilidade nos é muito prejudicial.

 

42. Quem poderia dizer o número de crimes que surgiram, ao primeiro pensamento de cabeças confusas à leitura desses fatos, contados assim tão cruamente? Os falsos princípios políticos e a irreligiosidade, de um século para cá nos trouxeram mais de uma lição da providência divina. Só uma visão cristã da vida pode levar à paz social que faz reinar a justiça e a caridade.

 

43. A grande utopia moderna chama­-se: ateísmo social. O único laço social verdadeira­ mente eficaz é uma religião comprometida com as bases. A vida privada e a vida social são solidárias. Se uma for incompleta ou sofrer desvios, a outra o sentirá.

 

44. A causa principal da nossa crise social reside nisto já não se observam os mandamentos de Deus, e deles já não se faz conta na direção civil da sociedade.

 

45. Há injustiças sociais que se co­

metem contra os ricos, como a violação do direito de propriedade, mas há muitas outras injustiças que se cometem contra os pobres, como o mantê-los sem condições de vida decente.

 

A SOCIOLOGIA POLÍTICA DE LEÃO DEHON

 

46. O luxo foi outrora o câncer dos ricos; hoje é a lepra dos pobres. Possuir e gozar tornaram-se os fins da vida.

 

47. O primeiro remédio da França será a santificação do domingo. Na Igreja patrões e trabalhadores reaprendem as leis da justiça, da eqüidade e da caridade fraterna.

 

48. O Estado sem Deus. O Estado ateu é algo absolutamente chocante e relativamente novo, mas um mal já vasto e profundo.

 

49. Rejeitamos o reino de Jesus Cristo. Eis a origem de nossos males. O único remédio é restabelecer entre nós o seu benéfico reino e responder ao apelo do céu.

 

50. Jesus, mesmo como homem, é o rei de toda a criação. Ele tem sobre ela a mais alta e absoluta autoridade, pois é o primogênito de toda a criatura. É verdade que ele não é o primeiro em questão de época, mas ocupa o principal papel e ultrapassa a "todos, no plano divino. Tudo foi feito por ele e tudo se desenvolve nele e, ele mesmo, em Deus. Eis a ordem imutável e eterna: o Salvador, por sua humanidade como por uma corrente misteriosa, deve enlaçar os homens. elevá-los e os reconduzir ao Pai.

 

51. Hasteemos a bandeira do Coração de Jesus e a simplicidade de nossa fé reacenderá os fracos, pois que este sinal sagrado traz consigo a esperança.

 

52. A Igreja não tem o direito de fazer do Estado o seu feudo, mas, enquanto religião de direito natural, deve indicar ao Estado qual é o último fim do homem e da sociedade e os meios gerais para atingi-los; e, enquanto religião verdadeira e revelada, deve voltar-se para a sua missão de libertadora.

 

53. A Igreja reconhece o direito a tudo o que é verdadeiro e honesto, mas não se opõe à tolerância de que o poder público, às vezes, faz uso com relação a coisas contrárias à verdade e à justiça, para evitar um mal maior, que seria o de privar o povo de toda a liberdade.

 

54. Eu quis contribuir para a reabilitação das massas populares por meio do reinado da justiça e da caridade cristãs. Gastei nisto boa parte da minha vida.

 

55. Se as injustiças de nossa sociedade não são pecado então não existe nenhum pecado!

 

56. Unamo-nos dentro da constituição, para recolocar a vida da nação na corrente cristã.

 

57. A sociedade é de direito natural. É quase uma imagem da vida trinitária de Deus. Contra o cesaropapismo do Estado totalitário é preciso afirmar que a sociedade existe para o bem do indivíduo, e não vice-versa. O Estado deve promover o bem comum, mediante uma ação organizada de assistência, de serviços públicos, proteção dos direitos e da liberdade individual e coletiva.

 

58. O Estado deve fazer aquilo que os indivíduos não conseguem fazer; deve deixar os indivíduos fazer aquilo que conseguem fazer; e ajudar a suprir, dentro do princípio de subsidiariedade, no ensino e na assistência pública; deve também favorecer a descentralização e a criação de associações e cooperativas em defesa dos fracos.

 

59. A anarquia não consegue entender que a autoridade existe para proteger a liberdade de todos.

 

60. Em si, todas as forças de governo seriam boas, se não fosse o que se faz para depois, deturpar os objetivos com que se começou a governar.

 

61. A questão do capital e do trabalho se resolve por leis cristãs e a solução se aplica igualmente a todos os tempos e a todas as formas sociais. A lei cristã referente à posse e ao uso das riquezas é iluminada pela passagem do evangelho. que torna obrigação ser pobre de espírito. A pobreza em espírito do rico rende abundantes frutos e torna suas obras de caridade responsáveis e o preserva da tentação de ser injusto. Por essa caridade ele procura erguer casas para os doentes e para os velhos. Pelo zelo da justiça ele escapa de todos os abusos da usura e da opressão. O indigente é pobre em espírito. quando contempla. sem inveja nem ódio apaixonado. os bens que não recebeu em partilha. O pobre e o rico. contudo. são iguais na sublime igualdade de filhos de Deus (Cad. 5, p. 496).

 

62. A agitação socialista não é Como se pretende fazer crer. a conseqüência de uma simples questão de estômago. J: umA questão de justiça. de moral idade social e de igualdade. Foi a violação das leis de justiça social e a infração dos direitos naturais da associação que provocou o mal-estar entre as classes operárias. É também uma questão de dignidade. O povo se cala, mas conserva no coração um sentimento de dignidade que nem a miséria apaga. Honra. fraternidade. humanidade é coisa que os pobres sabem entender. No fundo, esta agitação é uma questão filosófica e teológica. Ela atinge a finalidade da sociedade e o relacionamento entre as classes sociais. as relações comerciais e o contrato e trabalho.

 

63. Pe. Dehon em "Por que não sou socialista:"O socialismo quer me colocar numa casa construída com o fruto do meu trabalho, casa que ele administrará e da qual me expulsará quando bem entender.

- Eu quero morar numa casa construída com o suor do meu rosto, mas da qual ninguém poderá me expulsar.

- O socialismo quer me obrigar a ser benfeitor da humanidade às custas do meu trabalho, emprego que ele administrará e no qual me admitirá se lhe aprouver.

- Eu não quero ser reduzido ao papel de assistente social involuntário.

- O socialismo quer me obrigar a pôr meus filhos em escolas pagas com o meu trabalho e o meu dinheiro onde ele instruirá e educará meus filhos à sua imagem. E eu prefiro escolher a escola dos meus filhos, mesmo que tenha que pagar as anuidades.

- O socialismo quer me obrigar a passar minha velhice num asilo, construído e administrado com o meu dinheiro, onde serei alojado sem que eu nem meus filhos optemos por isso. E eu prefiro passar minha velhice em paz, junto de meus filhos, em ambientes que eu escolhi.

- O socialismo quer me dar a vocação à carreira que lhe agrade, fazer-me trabalhar e medir o meu pão, tirar-me o meu Deus, a minha família e a minha liberdade. (PE. DEHON, Manual Social Cristão, Paris, 1894, pp. 102-103).

 

64. A democracia cristã tem como programa a Encíclica sobre a condição dos operários e exige, na vida social, leis e instituições favoráveis aos trabalhadores, na vida política uma ascensão progressiva do povo e sua progressiva participação na administração pública.

 

65. E que ninguém se atemorize por eventuais desordens que poderiam surgir entre o povo embriagado pela liberdade. De resto o que é mais inconveniente: um pouco de agitação. na qual o caráter do povo se tempere, ou a apatia das massas da época das monarquias absolutas?

 

66. A agitação socialista não é, como pretende-se fazer crer, a conseqüência de uma simples questão de estômago. É uma questão de eqüidade moral e justiça. Pior do que um lobo na jaula. o povo aceitará uma corrente, desde que tenha o que comer à sua mesa...

 

67. O futuro da democracia é certo. Seu reino virá conosco ou contra nós. E, se queremos que Cristo reine, é melhor- que nenhum grupo político nos supere na preocupação pelo bem do povo.

 

68. O ideal deles (marxistas)"" é aquela vasta máquina coletivista que fará da terra uma prisão de cidadãos-escravos, que trabalharão sob a batuta de vigias. tendo apenas lembranças da liberdade.

 

69. Quando o Deus Estado nos tiver concedido este nivelamento, seremos todos iguais. mas será uma igualdade de rejeição.

 

70. Precisamos de uma reforma legislativa que satisfaça as justas aspirações do povo e que faça desaparecer o quanto possível os motivos de seus legítimos protestos e lamentos. Tal reforma deve ser exigida com todos os meios à nossa disposição: imprensa, conferências, parlamento. São, pelo menos, doze metas a serem perseguidas:

- reconhecimento jurídico do direito de associação;

- que o descanso festivo seja universal e protegido por lei;

- que o contrato de. trabalho tenha uma legislação especial, com garantias formais e precisas para todos os direitos dos operários;

- que um código do trabalho regule o dia normal de trabalho, as condições de trabalho noturno, o trabalho da mulher e das crianças;

- que o salário mínimo seja previsto e julgado pelo fórum competente;

- que se reprima a usura e a agiotagem, as falcatruas, as sonegações, os trustes e coisas desse gênero;

- favorecer seguros sociais de todo o tipo;

- facilitar organizações operárias e a defesa dos direitos do trabalho;

- a pequena propriedade deve ser favorecida e ajudada;

- que se construam casas operárias acessíveis aos operários;

- que o balanço do Estado seja livre de incrustações parasitárias;

- que se vigie a atividade das seitas ou sociedades secretas.

 

71. Direitos do operário:

- direito de tender ao próprio fim;

- direito de praticar livremente uma religião:

- direito de exigir, nas fábricas, a lei moral e a higiene;

- direito à participação nos bens da fábrica;

- salário familiar.

 

72. O operário conhece a greve, mas conhece muito pouco as verdadeiras associações, permanentes, refletidas, sábias e fecundas (Manual Social Cristão).

 

73. É preciso conscientizar os pobres de que os sindicatos e a associação são os meios mais seguros de atingir a liberdade a que aspiram.

 

74. O .direito à propriedade é um direito natural, mas o direito ilimitado de propriedade é pagão e ateu. É preciso renunciar. ao direito de propriedade diante da. extrema necessidade dó próximo. É preciso partilhar com os necessitados aquilo que não necessitamos.

 

75. A primeira esmola que se deve ao proletário é seu justo salário...

 

76. É do plano divino que o homem encontre no trabalho um meio de satisfazer as exigências físicas e morais da vida; e o meio de angariar o suficiente para os dias de infortúnio, doença ou desemprego.

 

77. O salário de um trabalhador não pode nunca ser de um só indivíduo: deve ser familiar. Se é pessoal, não se pode contudo esquecer que é pago a uma pessoa que tem uma família sob seu sustento.

 

78. Sem o trabalho, as coisas úteis e agradáveis ou não existiriam ou não serviriam.

 

79. O trabalho .tem um valor criativo, redentor, libertador, expiatório, preventivo, social e moral. Infelizmente por vezes o trabalho reduz o operário a um autômato, desedução e o embrutece, porque não é levado a sério como força moral e social.

 

80. Toda a injustiça na troca de valores, seja em dinheiro, seja em trabalho, é uma usura. O patrão que paga salário baixo comete pecado de usura.

 

81. Há uma usura moderna que não é um simples interesse comum, mas um amontoado de especulações que leva o capitalista a violar a lei de igualdade na troca e abusar da necessidade, da fraqueza e da boa vontade do próximo para satisfazer a sua febre de lucro.

 

Propunha:

82. - Uma diminuição da jornada de trabalho, para que o operário tenha tempo de desenvolver, de maneira normal. o seu corpo e o seu espírito.

- Que ao menos durante o aprendizado se evite uma excessiva e exclusiva especialização, de

forma que o operário conheça toda a sua profissão e não só os detalhes.

- Que se organize o trabalho, de maneira que o operário não se torne presa da exploração e da concorrência injusta.

- Que o trabalho seja licitamente conquistado e licitamente utilizado.

- O lucro é lícito, mas tem um limite, porque acaba quase sempre em opressão e injustiça (L'usure aux temps présents).

 

83. Estas pobres famílias habitam em choupanas de chão batido e cobertas de ramagens com um só cômodo, nenhum móvel, um colchão de capim; e um só para toda a família. Para alimento algumas batatas...

 

84. A maior parte das pessoas trabalham fiando algodão. Mulheres e filhas são empregadas como bobinadoras. Catorze a quinze horas de trabalho por dia. Os salários? Um homem recebe de 1,50 a 3 francos, as mulheres de 0,90 a 1,25 francos. Os filhos e as crianças de 0,50 a 1,25 francos. Mas o alimento de um operário sai mais ou menos a 0,75 francos, o de uma mulher a 0,65 francos. O salário aumenta ou abaixa de acordo com os acontecimentos. É como o preço dos escravos. Não há nenhuma instituição que proteja o operário. A velhice, a doença, o grande número de filhos aumentam a fome e a miséria da família.

 

85. O trabalho dessa gente é humilhante. O calor nos ambientes de trabalho é tão forte que o fio que ali se fabrica é mais fino. Chega a 37 ou 40 graus. Sexo e idade é misturado na mesma atmosfera estufante.

 

86. Daí já se pode imaginar a situação moral Crianças e moças de 15 anos envolvidas com bebida e coisas bem piores, que não preciso descrever. A condição desses operários é pior do que a dos escravos da antiguidade que eram, pelo menos, um pouco parte da família do patrão. Aqui nem isso acontece.

 

87. Em todos os corações reina, não sem graves motivos, o ódio contra a sociedade atual, com antipatia pelo patrão e o descontentamento contra o clero, que nada faz por eles.

 

88. O salário em Saint Quentin aumenta ou abaixa de acordo com o capricho da situação, como o preço dos escravos. Nenhuma instituição para proteger o trabalhador. Nove entre dez, dentre os industriais, não tem nenhuma noção dos deveres de um patrão (Cad. 5, p. 483).

 

89. Os operários perdem, na fábrica, todo o contato com o patrão, porque o operário não tem diante de si senão um ser abstrato: a companhia.

 

90. E, enquanto o pai e a mãe se consomem em dez ou doze horas de trabalho nas indústrias, os filhos vagam pelas ruas onde, precocemente, com más companhias, aprendem os caminhos do vício e da revolta. No seu espírito vai se formando o espírito de anarquia de amanhã.

 

91. Pode-se dizer que ninguém da classe operária freqüenta Igreja. Nenhum sentimento nobre é ensinado a essa gente magnífica, nem pelo padre nem pelo patrão.

 

92. Não se iludam: o povo não tem mais medo de ser escravo. Ele se deixará seduzir pela pregação marxista, porque, em troca da liberdade perdida, pelo menos terá duas refeições diárias, enquanto hoje sofrem uma irremediável fome.

 

93. O operário frente ao capitalista é a fraqueza diante da força...

 

A IGREJA COM QUE DEHON SONHOU

 

94. Primeiro remédio da reforma social: a Igreja, pois só esta tem a capacidade de reconciliar ricos e pobres na caridade; só ela demonstrou através dos séculos que, apesar dos erros cometidos, tem uma doutrina capaz de realizar a reconciliação entre as pessoas. A fé verdadeira é a única que nos liberta de todas as tiranias e a que promove todo o progresso.

 

95. O padre ganhará o coração dos fiéis fazendo uso dos instrumentos de progresso social que promovem a justiça, tal como associações, sindicatos e congêneres.

 

96. Reza-se e pede-se voluntários; recita-se o pai-nosso, - oração ensinada por Nosso Senhor; mas ela continua uma letra morta. Diz-se alto e bom som: "Que o vosso nome seja santificado", mas não se santifica o nome dele. Exclama-se: "Venha a nós o Vosso Reino" e, contudo, o que se promove é o reino da matéria. Deseja-se: que a "Vossa vontade se faça", mas percebe-se que o que conta é a própria vontade.

 

97. Quanto a mim, declaro haver tomado parte em muitos congressos no espaço de 25 anos. Sempre os considerei retiros espirituais.

 

98. Leão XIII assinala os intoleráveis males de que sofrem os trabalhadores. Não os apresenta como fatalidades e sim como injustiças sociais e pessoais. Ele não apenas pede aos católicos que apaguem essas injustiças pela caridade. Ele exige que elas sejam suprimidas. A Encíclica (R.N.) não é um simples convite a que demos esmolas: ela estabelece e traça' as linhas prioritárias dos direitos do trabalhador em. base aos princípios cristãos.

 

99. Se ela diz, no fim, que a solução social virá de uma maior efusão da caridade, todo o contexto indica que ela fala da caridade no sentido lato da palavra, isto é: a que começa com o cumprimento da justiça.

 

100. É preciso ir ao povo. Porque ele é infeliz, porque ele sofre, porque ele está num estado de miséria imerecida, porque está sem apoio não tendo mais as suas antigas corporações e sindicatos. Como se faz para ir ao povo? Pela palavra e pelas obras, pela palavra pessoal e pela palavra pública, pelas associações religiosas e pelos jornais. É preciso ir à sua casa e à sua fábrica.

Mas isto não é tudo. Não basta levar-lhe a palavra. É preciso ocupar­-se de seus interesses temporais.

Leão XIII não se contenta em indicar o caminho: insiste que isto deve ser feito depressa e estimula nossa apatia. Que cada um se meta à tarefa que lhe cabe e sem demora. Adiando o remédio o mal se tornará incurável. Falar é bom, agir é melhor. A vitória será de quem agir mais.

 

101. Amemos o povo, defendamo-lo que na hora oportuna ele nos rodeará e tomará nossa defesa.

 

102. É hora de agir. É hora de deixar de lado as discussões bizantinas. Não se trata de buscar um

novo programa. Façamos congressos mas não somente para discutir sobre o espírito com que se deve agir. Mas também para decidir alguma ação.

 

103. Nosso Senhor para ganhar as almas também curou os corpos, nutriu no deserto os famintos e encheu de peixe a rede dos pescadores. A Igreja não tem mostrado suficiente zelo pelos interesses materiais dos povos mediante a ação de muitos de seus pontífices e hierarcas? Não. foram seu_ monges que criaram cidades, plantaram, secaram pantanais; criaram hospitais? Não foram seus missionários médicos, agricultores e até inventores?

 

104. Cada amigo do Coração de Jesus deve reproduzir este divino coração de uma maneira especial e distinta, segundo as suas possibilidades e como a graça o Inspira, mas sobretudo viva nele o Coração de Jesus. Este coração que ama, se imola e não deixa jamais de se doar.

 

105. Coração que, é verdade, é também o de um homem, mas não deixa de ser o coração de Deus.

106. Coração que não deixou um momento de se empenhar por nós,

e que é o mais perfeito de todos os corações oblatos e vítimas de amor.

 

107. Leão Dehon falando aos seminaristas sobre alguns monsenhores que combatiam o envolvimento social da Igreja:

- O fato é que estes valentes senhores são muito velhos. Sim, isto mesmo. Velhos demais. São no mínimo cinqüenta anos mais velhos que Leão XIII. Não se deixem perturbar, meus caros seminaristas, pelos devaneios de uns dois ou três velhos abades. Estão atrasados pelo menos uns três quartos de século. E freqüentemente matraqueiam como vovozinhas descontentes. Vocês tem o Papa ao seu lado. E é isto o que lhes basta. Com justiça o Congresso de Taranto o aclamou como o mais jovem dos papas (Dorrestein, pp. 364-365).

 

108. Procuremos socorrer as misérias e os sofrimentos corporais desses infelizes. São esses sofrimentos que os afastam do pensamento da salvação e os mantêm na blasfêmia e no desespero.

 

109. O povo é bom mas se deixa enganar facilmente. O sacerdote precisa conscientizar o operário e ensiná-lo a fazer uma escolha livre. Sem o coração do Salvador isso é impossível.

 

110. Se vocês querem estar à altura da sua missão devem estudar os problemas sociais do nosso tempo.

 

111. Recordo-me de um bom diretor de seminário Que me dizia durante minha juventude: O padre deve ser encontrado apenas no altar, no confessionário, no leito dos enfermos. Fiquem ali. Se me escutarem nunca passarão dos limites...

 

112. O mal de nosso tempo é a timidez, a frouxidão, o laxismo e o desespero. Não se viu em tempo algum algo que se parecesse com o respeito humano que tomou conta de nossa sociedade. Percorri imensas regiões da Ásia, da Europa e da África. Por toda a parte se reza e por toda a parte se manifesta a fé. Mas, na França, a religião é um fantasma que assusta.

 

113. O papa tenta acordar do letargo a nossa geração desunida e desconjuntada. Quer fazer reflorescer a paz no seio desta França que um dia foi chamada de Nação Nobilíssima. E espera que ela volte a ser um baluarte de Deus. E que possa contribuir para salvar o cristianismo na luta que se trava contra a civilização. Leão XIII é um novo papa Urbano pregando uma cruzada contra uma nova barbárie. (Les Diréctions Pontificales, 1897).

 

114. Vejo alguns bons padres que ainda esperam a salvação de um "clic" vindo do céu, por meio de algum personagem extraordinário na França ou na Itália. Mas não creio que se deva alimentar esta vaga esperança. É preciso ao invés lutar e ir para o meio do povo, fazendo tudo como se tudo dependesse de nossa atividade junto deles. Só depois disso Deus nos ajudará como ele o sabe fazer.

 

115. Ir ao povo é voz do Papa, dos bispos, dos teólogos, dos bons cristãos. dos pensadores conscienciosos, mesmo que não sejam dos nossos. O momento é propício.

 

116. Está chegando o dia em que a Igreja tratará dos seus interesses não mais com os que governam, mas sim com o povo.

 

117. Ir ao povo será a nossa cruzada contra a escravidão econômica. A vitória será o prêmio para quem mais se envolver com o povo.

 

118. O povo é fiel à Igreja, embora em muitas ocasiões pareça ter sido esquecido por ela. Ele sempre acaba voltando quando a Igreja redescobre seu lugar junto a ele.

 

119. Ação pelo povo feita pelo povo. Isto é apostolado de Igreja.

 

120. A salvação do povo tem que vir do próprio povo.

 

121. A Igreja ama os pequenos por­ que é compassiva. Os peque­ nos amam a Igreja porque são gratos.

 

122. A Igreja precisa do povo, por­ que a caridade e o apostolado sofrem quando não são comunicados.

 

123. O papa (Leão XIII) pede e exige este novo catolicismo e estes novos católicos, não porque haja algo a ser mudado na doutrina católica, mas porque há muita coisa a ser desenvolvida e atualizada. aplicando­-se seu conteúdo de acordo com as realidades de tempo e lugar.

 

124. Nós não trazemos novos princípios, mas sim os princípios antigos em linguagem nova e com as deduções que nosso tempo reclama (Gad. 44, pp. 18-19).

 

125. Diante da impiedade revolucionária, todo cristão deve ser um sacerdote. Nosso escopo é a salvação da sociedade por" meio da associação cristã. Precisamos de apóstolos leigos de seleção, saídos de todas as classes sociais... O apostolado dos leigos se tornou uma necessidade, um dever para a Igreja de Cristo.

 

126. Se tenho que dar um conselho aos cristãos dos nossos dias e a todos os sacerdotes, então será este de não ficarem alheios – como ficam os demais - às questões sociais... esta devia ser a nossa paixão dominante, fora de toda política, ambição ou recriminação.

 

127. A pesca milagrosa não se faz na sacristia, mas no alto-mar.

 

128. Que a Igreja se envolva na corrente social e terá frutos de renovação da sociedade.

 

129. Hoje não basta mais um apostolado espiritual. Temos que nos atirar também ao aposto lado de transformação social.

 

130. A Igreja deve formar almas piedosas, mas também almas capazes de praticar a justiça e viver por ela.

 

131. A Igreja precisa de almas que se imolem, como precisa da santa missa, porque ela vive do sacrifício de Jesus Cristo continuado por essas duas maneiras.

 

132. Os ministros de Cristo deveriam ser os defensores da justiça, da fraternidade e da igualdade social. O padre precisa intervir na causa social não por oportunismo e para converter os operários, mas por um dever de justiça e caridade e por uma rigorosa exigência do seu ministério pastoral.

 

133. O jansenismo nos tornou tímidos e pusilânimes, e nos levou a fugir da vida pública. Não agimos mais. Sem sabê-lo estamos enfermos de um liberalismo econômico, político e moral. E o pior é que acreditam ter lido nos evangelhos que Jesus fez o que estão fazendo... Dizem eles: como homens, contentemo-nos com esperar... (Manual Social Cristão, p. 159).

 

134. Se a maioria de um país adota a república, os católicos errariam retirando-se para as suas tendas ou ficando na oposição de maneira irreconciliável. Fariam com isso o jogo de uma seita política e não' o de sal da terra.

 

135. Senti a dor de ouvir até as populações simples e nativas de algumas regiões do Oriente dizer com um tom de escândalo: A França é um povo que não crê mais em Deus. E o pior em tudo isso é o desespero dos melhores que dizem: Não há mais nada que se possa fazer... Isto não tem mais conserto...

 

136. Como vigário: Isto é absolutamente contrário a tudo o que eu desejava desde tantos anos: uma vida de recolhimento e de estudos. "Fiat".

 

137. Eu tinha para esse gênero de ministério (paroquial) a maior repugnância, mas não me dei por vencido. Teria preferido o silêncio, a obediência do convento, a pobreza, o estudo.

 

138. O último vigário coadjutor é em geral o mais sobrecarregado com escolas. No catecismo paroquial eu tinha as crianças das escolas leigas e precisava segui-Ias depois da escola. Fazer patronatos. círculos. Ia encontrar minha vocação de fundador de obras e propagandista da ação social nesse trabalho...

 

139. Como último vigário auxiliar eu tinha muitas missas em horários avançados, enterros de quinta classe, casamentos de quarta classe. Missa do meio-dia aos domingos. Meus dias eram bem completos. Assistir aos enterros, levar os mortos ao cemitério, coisa que me tomava muito tempo, catecismo na igreja e nas escolas, visitas aos doentes, preparação de sermão. J:ramos 7 para 30.000 almas.

 

140. (Naquele natal) fiz um verdadeiro sermão social. Todos os espíritos estão preocupados com a situação da França: assim, procurei mostrar que a França tinha sido castigada porque tinha se afastado dos ensinamentos e do exemplo de Belém (Cad. 5, p. 488).

Meu discurso tinha sido conforme a verdade (diria ele 15 anos mais tarde): tudo o que eu disse em particular sobre o mundo dos negócios e do trabalho, Leão XIII acabaria dizendo em suas encíclicas. Eu penso portanto hoje que talvez não o devesse ter dito naquele tom. Eu era padre novo e era o meu primeiro grande sermão numa paróquia. Talvez eu não devesse ter começado com uma mercurial sobre os costumes da sociedade local. Eu estava muito sob a influência de L'Univers. E creio que podia generalizar isto dizendo que hoje o padre vive mais de sua renda própria do que dos bens da Igreja (Cad. 5, p. 488).

 

141. Tudo restava ainda por fazer, mas muitas vezes estava só. A organização das nossas paróquias grandes não permite ao clero fazer apostolado. Quando nossos sacerdotes assistem aos funerais, seu tempo e sua atividade estão quase esgotados. Desta maneira viveremos muitos séculos sem refazer uma sociedade cristã.

 

142. Paróquias de 30.000 almas são uma situação anormal. O clero se ocupa de quem os procura. O resto vive no paganismo (Cad. 5, p. 485).

 

143. Estou demasiadamente ocupado em Saint Quentin. Tenho obras demais ali. No seminário sentia a atração da vida contemplativa e me habituara a ela. Sofro com a agitação atual. O pensamento de fugir da sobrecarga acompanha-me diariamente. Sinto que eu não poderia conservar suficientemente a vida interior que adquirira no seminário. Eu quereria a todo custo ser religioso.

 

144. Fazíamos muito. mas isso não era nada em comparação com o que tinha que ser feito (Cad. 5, p. 482).

 

145. A organização de nossas grandes paróquias não permite ao clero fazer o apostolado como deveria. Após haverem alguns padres acompanhado um enterro, seu tempo já se foi quase todo. Com este sistema de trabalho pode-se viver por muitos séculos sem recristianizar a sociedade (Prelot, p. 62).

 

146. O apostolado dos leigos é um dever e uma necessidade da Igreja.

 

147. Se deve se acreditar nas estatísticas oficiais tudo vai excelentemente bem em Saint Quentin. Sobre quarenta mil almas trinta e cinco mil são católicas e um pequeno grupo de protestantes e israelitas.

 

148. Só doze pessoas são classificadas como "sem religião". Mas... nas páscoas não se distribui mais que 8.000 comunhões.

 

149. Há quinhentos mortos por ano e um entre cada cinco mortos morre sem assistência sacramental. Seiscentos nascimentos e apenas um em cada cinco é legítimo. Estamos portanto longe das estatísticas oficiais. É preciso entrar em contato com os que estão longe da Igreja.

 

 

OS NOVOS PADRES, SEGUNDO LEÃO DEHON

 

150. A teologia é a ciência das ciências. Há pessoas que preferem ciências humanas ou literatura. É uma pena, porque não entendem o que é a teologia.

 

151. Os dogmas são o coração dos estudos sagrados. Quanto mais a gente os estuda. mais se fortifica a moral. Se a formação dogmática do sacerdote é forte, seu papel de moralizador será eficientíssimo. Penso que é preciso dar um grande espaço para o dogma na formação moral do sacerdote, como se faz em Roma.

 

152. É preciso também rezar pelos padres e viver, na medida do possível, buscando a santificação deles. A Igreja costuma endereçar a Deus esta oração: "Enviai o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra". Ora, o Espírito Santo está sempre sendo enviado. Não é isto o que está fazendo falta. O problema é que nem sempre o recebemos.

 

153. Jesus Cristo tem sede de padres com coragem de ser santos.

 

154. Nunca nos faltarão os meios para atingir a santidade. O que é preciso é ter uma fé viva e verdadeira.

 

155. Jesus não nos pede ações espetaculares. Alguns padres quiseram entregar-se a tais ações e acabaram se perdendo. O mal desse tipo de mentalidade é que acaba levando à busca da própria glória e autopromoção.

 

156. Somos pequenos e falíveis, mas nossa boa vontade e nossa simplicidade nos aproximam muito mais de Jesus do que a busca do espetacular e do espalhafatoso.

Dehon falando ao Jovem clero:

 

157. Se certos nobres conhecessem os vossos sonhos de apostolado junto ao povo tremeriam de desespero. Algum padre mais velho que vós vos chamaria de desiludidos e utópicos. Algum piedoso leigo gemeria de dor ante tanta temeridade. Essa gente não consegue imaginar que um padre sirva para alguma coisa. além de visitas a doentes e funerais. Depois se admiram que o povo compare o padre a uma ave agourenta. Ide aos que vivem. Ide aos homens e não passareis, nunca mais, por aves agourentas (Manual Social Cristão, p. 175).

 

158. Não vos deixeis intimidar, caros seminaristas, pelo diabo que cavalga o dorso de dois ou três velhos curas e cônegos. Estão atrasados três quartos de século, e às vezes deliram. Deve levar a luz no meio das trevas; ele que é a luz do mundo.

 

159. O padre e o leigo comprometido são o sal da terra e a luz da vida social. Eu por mim, penso que é preciso ir mais aos homens que às mulheres e às crianças se se quer mexer com as estruturas da sociedade. Jesus agrupou um grupo de homens e algumas mulheres. Não se limitou às crianças e às mulheres.

 

160. Nós, sacerdotes, somos amantes apaixonados do progresso.

 

161. O sacerdote deve ser o homem dos estudos e das obras sociais.

 

162. O sacerdote deve intervir no movimento social atual, não só por um oportunismo que seria bastante justificado, mas por estrito dever de justiça e de caridade, para cumprimento rigoroso das funções de seu ministério pastoral.

 

163. A ação social é, para o sacerdote, supremo dever.

 

164. Um homem que pretende mudar a sociedade não pode ter idéias tímidas.

 

165. Uma vocação privilegiada requer grande fidelidade.

 

166. O sacerdote restringe por demais suas atividades e, não indo além da sacristia, nem da Igreja, perdeu o contato com os homens, aos quais quer salvar. Urge, pois, que ele saia deste estado e se interesse pela felicidade mesmo material da população.

 

167. Acusamos certos padres de excesso de atividade; mas eu pergunto: não seriam os outros padres culpados de excesso de pouco trabalho?

 

168. Alguns padres são desconhecidos, porque se fazem desconhecer escondidos nas suas sacristias.

 

169. A situação social atual muitas vezes se torna causa de pecado. O padre precisa lutar contra estas causas.

 

170. Não se ocupem só de senhoras, velhos e crianças, doentes e pobres.

 

171. Não levem a sério os que dizem: não há outro caminho. É a regra. é a lei. Assim fazia Jesus...

 

172. Esses piedosos padres viram crescer o mal, assistiram à apostasia de um povo inteiro e... criaram associações para mocinhas.

 

173. Eis a que chegou a ilusão dos piedosos defensores do status quo: viram o mal crescer, assistiram a apostas ia de todo um povo e criaram associações de mocinhas...

 

174. Se vocês são padres, alguns confrades mais velhos que não conheceram senão os métodos antigos, os considerarão como sonhadores de utopias, os piedosos leigos e as devotas gemerão sobre a vossa temeridade.

 

175. Esta gente fabulosa não vê com prazer os indiferentes dizer-nos que a religião é boa para mulheres, velhos e crianças. mas sem o perceber faz tudo para que se diga isto. Não conseguem entender que um padre possa se envolver com outra coisa além de visitas a doentes ou enterrar os mortos. Preferem que o povo nos veja como coveiros ou abutres ou aves de mau agouro. Ir aos vivos que devemos ir. Ir ao povo que devemos ir se não queremos passar por aves de mau agouro.

 

 

A CONGREGAÇÃO DOS PADRES SCJ

 

176. Fundei uma Congregação muito imperfeita; pedi misericórdia por mim, para que eu possa salvar a minha alma. Deus escolheu-me para fundar uma obra, e eu me tornei indigno, com tantos pecados, falhas e imperfeições...

 

177. Senti que tomei a cruz nas costas, quando me ofereci a Nosso Senhor como sacerdote reparador e como fundador do novo instituto.

 

178. O fim da Congregação é procurar a glória de Deus, mediante a devoção ao Sagrado Coração de  Jesus.

 

179. A adoração reparadora é a not