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Zilda, apóstola e mártir da vida
Morreu no dia 12 de janeiro de 2010
Tenho lido e ouvido maravilhas sobre a Dra. Zilda Arns, há oito dias falecida vítima do terremoto que assolou o pobre país do Haiti. Tudo o que foi escrito e falado não mistifica nem privilegia Zilda Arns sobre a multidão incalculável de vítimas do terrível acidente. Porque Zilda está acima de mistificações e de privilégios.
Antes de morrer, ela já havia dado a vida evangelicamente pelos pobres que amava (cf. Jo 15,13). Nem no momento da morte teve qualquer privilégio, nem o de falecer dignamente confortada pelo carinho dos familiares e dos demais que amava, ao seu redor. Zilda Arns morreu vítima da mesma sorte dos pobres, mantendo-se igual a eles até na tragédia inexplicável. Seu cadáver teve a companhia dos mesmos outros cadáveres que em vida significaram o ideal da vida dela: "Para que todos tenham vida em abundância" (Jo 10,10). Não morreu pelos pobres nem morreu sozinha, mas junto com eles na mesma tragédia! Viveu com os pobres e com eles também morreu!
O impacto da morte não era mais surpresa para Zilda Arns desde que perdeu o marido e teve que enfrentar a viuvez com crianças ainda pequenas para sustentar e educar. Desse sofrimento, aconselhada pelo seu irmão dom Paulo Evaristo Arns, brotou a vida para milhões de pessoas que hoje lhe devem a vida pela ação da Pastoral da Criança. Atualmente, só no Brasil, a Pastoral da Criança atende a cerca de 2 milhões de crianças e 80 mil gestantes pobres.
Há pouco tempo, a pedido da CNBB fundou a Pastoral da Pessoa Idosa nos moldes da outra.
Zilda Arns não é apenas uma vida para lamentar. Zilda Arns é um compromisso a nos desafiar. Ela desafia pelo testemunho que lhe valeu a vida inteira e a morte inesperada. O testemunho da consagração total de sua pessoa à causa dos pobres. Um testemunho que precisa ter acolhida entre nós e nos despertar para o mesmo compromisso de Zilda Arns, embora de muitas maneiras diferentes. Principalmente o compromisso de profissionais que se consagrem como voluntários durante alguns anos de sua vida, em regiões pobres, carentes sobretudo do afeto humano e do consolo na dor. Para dar a vida não é preciso morrer, basta fazer dela um serviço fraterno aos irmãos pobres, mas ela foi ao extremo do amor que é típico dos mártires.
É comum ouvir que o Brasil e o mundo necessitam de exemplos e a Igreja, de profetas. Zilda Arns está no céu, cidadã honrada pela sua profissão e cristã venerada pela profunda opção pelo Evangelho. Para muitos pobres ela transformou o inferno da miséria no paraíso aqui na terra. Lá ela chegou antes, mas em tempo de garantir que o céu começa aqui para os que forem capazes de serem apóstolos e mártires da vida.
Pe. Augusto César Pereira SCJ
Dehoniano
O jovem Exército Brasileiro
O jovem soldado ferido que retornou ao país gostaria de, uma vez curado, voltar ao Haiti para ajudar.
Na oportunidade em que o Presidente Lula decidiu enviar uma força militar para juntar-se à ONU em missão de paz, sofreu objeções. Mas não desistiu. E o Exército Brasileiro vinha mantendo serenamente sua missão de pacificar. É interessante notar como a necessidade de um povo irmão, o mais pobre da América Latina, forçou a transformação as forças armadas a trocarem suas armas de guerra pelas armas da paz.
Ninguém imaginava que se ocupando com a construção da paz, nossos jovens militares estivessem treinando para a solidariedade. E o momento da solidariedade chegou terrível, inesperado, com força total. A única grande resposta para a desgraça indescritível deveria ser e foi a solidariedade. O Exército de jovens soldados brasileiros não foi ao Haiti por causa da desgraça do terremoto, os soldados já estavam lá em missão de paz.
Naturalmente, bombeiros, médicos, enfermeiros, religiosos e toda a sorte de voluntários de todas as partes do mundo que para lá foram, estavam impulsionados pela vontade de marcar presença de ação solidária para com os flagelados.
E quem não foi, encontrou no espírito de fraternidade universal, mil e uma maneiras de solidarizar-se com o sofrimento.
Porém, se é bonita e expressiva a manifestação de solidariedade em momentos de desgraça, ela desafia nossa conversão para a solidariedade antes das tragédias, para prevenir a desgraça anunciada pelas condições em que vivem os pobres. No início deste ano, mais uma vez sucederam-se catástrofes lamentáveis sob todos os pontos de vista. Com o "tradicional" sofrimento que atinge especialmente a população mais pobre.
É evidente que, em tantíssimas áreas de risco, mais dia menos dia desabará sobre os pobres desgraça sobre desgraça. E as pretensas desculpas e justificativas se repetem. De um lado pergunta-se com a maior desfaçatez, por que Deusa permite tragédias acontecerem. A pergunta não deve ser feita a Deus, mas ao homem que, ambicioso, agride e destrói a natureza.
Outro tipo de culpado é a vítima da desgraça: "Por que essas pessoas vão se alojar em áreas perigosas?" E a resposta provoca o nosso senso de responsabilidade: "E há locais mais seguros para as casas dos pobres?".
Não basta "as autoridades sobrevoarem a área das tragédias".
Os magníficos gestos de solidariedade são de momento, passam, mas é necessária a cultura da solidariedade. Esta é permanente!
Pe. Augusto César Pereira SCJ
Dehoniano
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