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ENTREVISTA Dom Celso - Há anos costumo fazer isso. Minha intenção é levar ao conhecimento dos leigos o que foi discutido nas assembléias das quais participo. Nessa última reunião que foi em São Judas, falei sobre as diretrizes da igreja traçadas na última assembléia da CNBB.
JSJ - O que quer dizer "diretrizes da igreja"? Dom Celso - As diretrizes são os caminhos que a igreja tem que percorrer. É a localização das estradas por onde deve passar a vida da igreja para que ela realmente evangelize o mundo. A cada quatro anos, traçamos de novo essas estradas, reafirmando-as ou abrindo outras novas. Um de nossos objetivos é o de evangelizar com cada vez mais ardor missionário, renovando a vontade de proclamar Jesus Cristo.
JSJ - E como deveríamos evangelizar no mundo de hoje, que apresenta tantas diferenças sociais, econômicas e culturais? Dom Celso - Temos que estar presentes nas mais diferentes culturas, nas mais diversas esferas da sociedade. Não podemos falar de Deus no Japão, na África ou no Brasil do mesmo jeito. Não há como evangelizar a terceira idade e os jovens da mesma maneira. A gente tem que estar presente nas diferentes culturas, nos diversos modos de viver.
JSJ - E a quem cabe esse papel evangelizador? Dom Celso - Na época de Cabral, quando o Brasil foi descoberto, quem evangelizava eram os jesuítas, ou seja, homens que deixaram tudo para dedicar sua vida exclusivamente à anunciação do nome de Jesus. Hoje em dia, as coisas mudaram. O problema não é mais o de anunciar o nome de Jesus porque, em geral, todo mundo já o conhece. O nosso desafio é o de viver como Jesus Cristo propôs que vivêssemos. Esse é o nosso desafio evangelizador. E para vencê-lo, ninguém melhor do que os leigos.
JSJ - Então são os leigos os maiores responsáveis pela evangelização de nossa sociedade? Dom Celso - Precisamos de uma evangelização que ligue o evangelho à vida. Digo que essa evangelização é obra dos leigos e leigas porque é feita no dia-a-dia, não dentro da igreja, mas no mundo onde eles vivem, na sociedade. Atualmente 99% da igreja é leigo/leiga. São eles que realmente vão sentir as dificuldades do mundo e poder levar Cristo justamente aí. São os leigos que conhecem a vida em família; nós , religiosos, renunciamos a isso. São os leigos que têm uma profissão humana; nós não a temos para poder cuidar da comunidade. São os leigos também que podem participar da vida de doação social, engajando-se na política para lutar por uma sociedade mais humana; posição que nós não podemos ocupar para não comprometer nosso trabalho na comunidade.
JSJ - E qual fica sendo o papel dos religiosos, como o senhor por exemplo? Dom Celso - Nosso papel continua sendo muito importante. Cabe ao padre, ao frade, à freira, ao bispo orientar de perto esse trabalho realizado pelos leigos. Temos que auxiliá-los a aprofundar as necessidades evangelizadoras, apoiando-os na vida de oração, de celebração e no dia-a-dia. Nossa missão é ajudá-los na execução de seus ministérios.
JSJ - O que são esses ministérios? Dom Celso - A missão de todos os cristãos em geral é evangelizar. Os ministérios são as maneiras de se conseguir esse objetivo, ou melhor, os serviços que a gente faz quando evangeliza. O que caracteriza o ministério é o fato dele ser um serviço permanente. O ministério é uma convicção, um chamado da comunidade. Aí é que vem a questão do carisma, ou seja, do dom que Deus nos dá para exercer algum trabalho na comunidade ou fora dela.
JSJ - Quer dizer que podemos exercer um ministério evangelizador fora da igreja? Dom Celso - Mas é claro. Um político, por exemplo, que luta na câmara por uma sociedade mais justa, que busca o bem-estar de seu próximo, que discursa a favor da vida e da verdade está exercendo um ministério mesmo não pronunciando o nome de Jesus. Seu trabalho político é uma estrada para conseguir um mundo mais próximo do que Deus quer para nós.
JSJ - Estamos falando há algum tempo sobre a evangelização. Afinal, o que vem a ser evangelizar? Dom Celso - A evangelização é como o terreno que a gente pisa. O nosso chão não é feito de uma coisa só, ele tem camadas de diferentes tipos de solo. A evangelização, assim como o chão, tem quatro tipos de solo. Sobre eles, nasce a planta bonita da vida segundo o evangelho. A evangelização só será completa se atingirmos essas quatro camadas.
JSJ - E quais são elas? Dom Celso - A ordem pouco importa. Começarei pelo "solo" do serviço ao mundo. Quem evangeliza quer construir uma sociedade solidária, digna, e luta contra a injustiça. Outro "solo" seria o do anúncio. Nele é que falamos de Jesus Cristo. Depois, viria o do diálogo. Sabemos que não estamos sozinhos no mundo e que há outras religiões. Ao invés de fazermos guerras, vamos fazer o diálogo diante dos imensos problemas do mundo. E, por fim, falo do "solo" do testemunho de vida comunitária. É nesse solo que se manifestam a amizade, o carinho, o companheirismo do povo. Evangelizar é mais do que falar o nome de Jesus; é fazer desses quatro solos realidade.
JSJ - Que mais o senhor poderia nos falar sobre a missão e o ministério dos Cristãos leigos e leigas, tema discutido na 37ª Assembléia Geral? Dom Celso - Seria muito interessante que todos lessem o documento Missão e Ministério dos Cristãos leigos e leigas. Lá, há várias informações interessantes a respeito desse assunto. O melhor de tudo é que não foram só os bispos que o escreveram. Os próprios leigos contribuiram na sua execução. Esse documento fala de como enfocar toda a riqueza de sua vida e vocação a partir do batismo. Leiam esse texto. Discutam em pequenos grupos. Vai ser importantíssimo.
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