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Fundador da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus
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Frases e Pensamentos de Padre Dehon
Sobre sua vida
Sua mãe, Estefânia
Seu pai, Júlio Dehon
Vocação contrariada
Formação
Diretório íntimo
Neo-sacerdote
Os jovens
O mundo em que Dehon viveu
A sociologia-política de Leão Dehon
A Igreja com que Dehon sonhou
Os novos padres, segundo Leão Dehon
A congregação dos padres SCJ
A reparação: seu ideal
Dehon e o "reino do Coração de Jesus"
Três anedotas que revelam quem ele era
Seus últimos dias
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SUA MÃE, ESTEFANIA
1. É minha mãe que domina as minhas mais longínquas recordações. Não a deixava nunca. Enquanto meu irmão
ia e vinha com meu pai, participando do seu gosto pela cultura e pela equitação, eu preferia ficar em casa,
seguindo, passo a passo, minha mãe.
2. Minha mãe foi para mim um dos maiores dons de Deus. Um instrumento de muitas graças. Que dignidade de vida,
que fé, que virtude, que coração tinha ela!
Ela domina minhas lembranças mais distantes. Não poderia deixar de ressaltar sua presença em minha infância.
Em casa, eu a acompanhava passo a passo. Sujeitei-me à influência constante de minha mãe e, apesar de minhas
travessuras, pouco a pouco despertei para a piedade e para as coisas religiosas.
SEU PAI, JÚLIO DEHON
3. Meu pai, a bem da verdade, não tinha uma educação verdadeiramente cristã. Conservava a educação de
sua família: o espírito de honestidade e de bondade, que caracterizou toda a sua vida. Perdeu, no colégio,
a prática da vida cristã, mas tinha por ela um grande respeito e admiração. Reconheço o papel decisivo de sua
ternura e afeição paternais para comigo, no concernente ao desenvolvimento de minha educação e, mesmo, à vida
cristã. Sua lembrança me é doce; me completa e me reconforta.
VOCAÇÃO CONTRARIADA
4. Tive com os meus pais alguns conflitos bem dolorosos. Meu pai sofria muito com minha decisão.
Não compreendia nada. Seus castelos haviam-se desmoronado. Minha mãe, com quem eu havia contado,
e que tinha feito tudo para me ajudar, acabou por me abandonar completamente. Era piedosa e me queria piedoso,
mas o sacerdócio a assustava. Parecia a ela que eu não seria mais da família e, para ela, eu estaria perdido.
5. Eu sentia que meu coração estava explodindo. Já não mais conseguia resistir a tantos
assaltos contra minha vocação. Houve momentos em que cheguei a ser duro diante de meus pais. Era preciso!
6. Eu lhes disse que eu era maior e que tinha o direito de escolher, porque era livre.
Enfim, acabaram por concordar. Mas as cenas de lágrimas se renovariam amiúde.
FORMAÇÃO
Os sonhos de uma juventude
7. O ideal da minha vida, o voto que eu formulava com lágrimas nos olhos durante a minha
juventude, era o de ser missionário mártir. Meu único ideal é Cristo. Desejo que Jesus me conceda as graças
necessárias para a minha salvação e me inflame de grande zelo pela salvação das almas. Quero entregar-me
inteiramente a Jesus. Anelo ser religioso, missionário e mártir. Hei de entrar em religião, evidentemente não
para ser canonizado, mas para fazer-me santo, com a ajuda divina; para melhor conhecer, amar e servir
a Nosso Senhor; para dar a meu sacerdócio de amanhã a atmosfera ideal, em que eu possa expandir-me plenamente.
8. Nosso Senhor me fez saborear o espírito de coração, de pobreza e de união com ele. Ele fez tudo.
A sua graça me levava e me empurrava.
9. Eu procurava a união com Deus. Muitas vezes sob tensão espiritual. Cheguei, algumas vezes, a sentir dor de
cabeça, de tanto esforço que fazia para viver plenamente nele.
10. Busquei algumas notas dominantes para minha vida: a devoção ao Coração de Jesus, a conformidade à
sua vontade, a união com ele e a vida de amor.
11. Bem cedo, Nosso Senhor apoderou-se do meu íntimo, e aí se estabeleceu, não obstante
minhas mil fraquezas.
12. DIRETÓRIO INTIMO
1) Fazer em qualquer momento a vontade de Deus, enquanto me é conhecida,
2) Nas orações, unir-me interiormente a Nosso Senhor.
3) Nas orações, unir-me ao pensamento íntimo do autor da oração.
4) Nas conversas, nunca me entregar inteiramente à natureza, à alegria excessiva, à dor,
às paixões; mas sempre guardar os freios na mão e vigiar.
5) Evitar preocupar-me demasiadamente com o futuro incerto.
13. Como eu maldiria o colégio onde
vivi interno, se Jesus não me tivesse dado a graça de reparar o que ali se passou comigo, celebrando, mais
tarde, na mesma casa o santo sacrifício.
14. Vejo claramente hoje: Deus me concedia então, generosamente, o espírito de amor e
reparação que é a característica da minha vocação.
15. Lembro-me agora, o poderoso auxílio que são as associações para a perseverança no
bem e na piedade.
16. Devo também muito a essas reuniões, que interessavam ao meu coração, propenso
naturalmente à compaixão.
17. No futuro, Deus fará de mim aquilo que ele quiser: possa eu receber somente a posição mais humilde e a
menos invejada. Para o presente, Deus me pede manifestamente que eu seja um estudante perfeito.
Regular o meu trabalho com prudência, moderá-lo com temperança, animá-lo com força e dirigi-lo com fé e
caridade. Desconfiar do demônio, que sob a aparência do bem, me faz divagar nas orações, quando considero
o meu ministério futuro, ou o chamado a um estado mais perfeito. Tender somente à perfeição do meu estado atual.
18. A minha consolação é levar daqui ricos tesouros, como o sacerdócio, a ciência eclesiástica, bons hábitos de
vida interior, e aquilo que não se desgasta.
19. Recebendo a tonsura, deixei cair na bandeja do eminente prelado, juntamente com meus cabelos, lágrimas
abundantes. Eu havia esperado tanto, e tanto lutado para realizar a minha vocação...
NEO SACERDOTE
20. Eu havia mobiliado meu quarto de maneira um tanto quanto elegante, mas logo me arrependi;
e troquei todos
os meus móveis por coisas mais simples. Meu pai ficou mal impressionado com isso. Enfim, o importante é que os
paroquianos entenderam e julgaram diversamente.
21. Não posso viver senão na união com Nosso Senhor. Do contrário, me desoriento e minha vida seria qual navio
desorientado.
22. Teria tido tantos, tantos favores a mais, se não houvesse dispersado os dons que Deus me
tem dado.
23. As tentações e as fraquezas me tolheram o ânimo. Nosso Senhor me deu esta firmeza, que não
estava na minha
natureza. A graça agia assim fortemente em meu coração.
24. Tenho o costume de, em viagem, recitar freqüentemente o rosário.
OS JOVENS
25. O moço é a mais bela criatura de Deus. É a esperança do porvir. Gosto de orar aos santos jovens, para que
protejam a juventude. Os moços são, por assim dizer, flores vivas que comunicam o esplendor de sua primavera e
exalam o perfume de seu frescor. Na manhã da vida, todas as flores da alma se abrem aos primeiros raios de sol.
Primavera deliciosa que não tem atrás de si nem recriminações, nem remorsos, enquanto a linfa brota, enquanto
a esperança, tal qual boa fada, nos envia os seus sorrisos.
26. Deus brindou a juventude com todos os elementos que servem para as grandes empresas: entusiasmo, força e
generosidade. Ela é, para uma nação, como que a seiva que percorre os ramos de uma grande árvore e que leva às
extremidades um verde sempre renascente, ao mesmo tempo conserva, no caule, o vigor e a fecundidade.
27. Porque receberam de Deus este dom e são filhos da sua especial predileção, os jovens são alvo dos ataques
mais apaixonados do mal. Por isso precisamos ter um carinho dobrado pelos nossos jovens, tanto pelo perigo que
correm, como pelo bem que trazem consigo.
28. As obras em que a juventude não toma parte estão golpeadas de esterilidade. Mas, porque recebeu de Deus
esse dom e essa marca particular de sua predileção, ela é sempre, da parte do espírito do mal, o objeto das
mais ferozes tentações e dos ataques mais veementes; pelo que nos deve ser duplamente querida, tanto pelos
benefícios que nos traz, como pelo perigo de que a devemos arrancar.
29. Unamo-nos, estudemos, trabalhemos. É um delito de lesa-pátria para todos aqueles que têm autoridade,
capacidade e dever de apostolado não se empenhar em promover nossa gente.
30. O livro e a espada, eis, jovens, o vosso ideal. O estudo e a ação social, política
e apostólica.
31. A Igreja vos faz cavaleiros. Honrem o livro e a espada. Sejam a jovem guarda.
32. A espada não vos é dada para usá-la com a mesma função de um fuzil, mas para guiar o batalhão à vitória
e a proteger todas as liberdades religiosas, políticas e sociais.
33. Nossas associações juvenis não passam de círculos de estudo, onde se fazem lindos discursos e conversinhas
agradáveis e fúteis... Falar com eloqüência é muito bonito, mas agir com prática é melhor.
34. O século XIX descortina aos nossos olhos todas as maravilhas da ciência e da indústria. Todos os progressos
materiais. Portanto, quem ousaria prever possíveis catástrofes? Com armas prodigiosas e essas máquinas
admiráveis de morte, as nações tornaram-se pagãs e seus governos não esperam mais do que um sinal para se
precipitar uns sobre os outros e nos oferecer o terrível espetáculo que Mor. Drumond bem o prevê em La Fin
d'un Monde.
35. O mundo está posto na concupiscência. Nada mais se respeita. É uma decomposição social que atrai os castigos
divinos.
O MUNDO EM QUE DEHON VIVEU
36. É nesse tipo ,de 'Sociedade podre que as reivindicações dos operários têm fundamento legítimo.
O mal contemporâneo vai da indiferença ao ódio. Que progresso enorme fez o ódio a Cristo, depois que foi
pronunciada a palavra de Voltaire: esmaguemos essa desgraçada (Igreja).
37. Quem não sente uma profunda enfermidade no meio da própria sociedade? Quem não vê os sinais evidentes de
desagregação e morte? Nos altos escalões, as autoridades despojadas da auréola de respeito e amor que a
religião lhes assegurava e uma força puramente material e brutal a seu serviço. Em baixo, o ódio, a inveja e
um furor implacável.
38. Lá em cima. um poder sem base sólida, muitas vezes desonrado por abusos gritantes; em baixo, ambições
mesquinhas de quem procura abertamente se levantar às custas da ruína social.
39. Tudo se desmorona. É em vão que a sabedoria humana tenta conjurar o perigo. Políticos, diplomatas sem
Deus e sem religião, depois de um século, acabaram à deriva. Seus tratados são praticamente impotentes para
nos salvar. É que. no fundo de todas as questões sociais e políticas. há uma questão divina.
40. Apropriando-nos da expressão de um grande doutor não hesitamos em afirmar que a solução de todos os
problemas do nosso tempo ainda é Jesus Cristo. "Solutio omnis difficultatis: Christus".
41. Não tenho medo algum de acusar a imprensa. como a causa mais ativa dos crimes e suicídios de que se tem
notícia cada dia e de os propalar indefinidamente, pelo sensacionalismo que lhes dão, insistindo sobre uma
infinidade de detalhes ou dados mais ou menos trágicos ou esdrúxulos. A esperteza e habilidade com que alguns
sabem apresentar detalhes odiosos, que deveriam passar silenciados, não respeita nada: nem da família. nem
conveniências sociais. No momento em que um jornal pode dar um resumo circunstanciado dos fatos antes de um
outro para poder fazer um furo de reportagem – como costumam dizer - fazem-no. Longe de nós o pensamento de
que o façam com a condenável intenção de corromper as massas. mas, se eles não sabem o que fazem, de veriam
pelo menos serem informados de que sua inconcebível irresponsabilidade nos é muito prejudicial.
42. Quem poderia dizer o número de crimes que surgiram, ao primeiro pensamento de cabeças confusas à leitura
desses fatos, contados assim tão cruamente? Os falsos princípios políticos e a irreligiosidade, de um século
para cá nos trouxeram mais de uma lição da providência divina. Só uma visão cristã da vida pode levar à paz
social que faz reinar a justiça e a caridade.
43. A grande utopia moderna chama-se: ateísmo social. O único laço social verdadeira mente eficaz é uma
religião comprometida com as bases. A vida privada e a vida social são solidárias. Se uma for incompleta ou
sofrer desvios, a outra o sentirá.
44. A causa principal da nossa crise social reside nisto já não se observam os mandamentos de Deus, e deles
já não se faz conta na direção civil da sociedade.
45. Há injustiças sociais que se co
metem contra os ricos, como a violação do direito de propriedade, mas há muitas outras injustiças que se
cometem contra os pobres, como o mantê-los sem condições de vida decente.
A SOCIOLOGIA POLÍTICA DE LEÃO DEHON
46. O luxo foi outrora o câncer dos ricos; hoje é a lepra dos pobres.
Possuir e gozar tornaram-se os fins da vida.
47. O primeiro remédio da França será a santificação do domingo. Na Igreja patrões e
trabalhadores reaprendem as leis da justiça, da eqüidade e da caridade fraterna.
48. O Estado sem Deus. O Estado ateu é algo absolutamente chocante e relativamente novo,
mas um mal já vasto e profundo.
49. Rejeitamos o reino de Jesus Cristo. Eis a origem de nossos males. O único remédio é
restabelecer entre nós o seu benéfico reino e responder ao apelo do céu.
50. Jesus, mesmo como homem, é o rei de toda a criação. Ele tem sobre ela a mais alta e
absoluta autoridade, pois é o primogênito de toda a criatura. É verdade que ele não é o primeiro em questão
de época, mas ocupa o principal papel e ultrapassa a "todos, no plano divino. Tudo foi feito por ele e
tudo se desenvolve nele e, ele mesmo, em Deus. Eis a ordem imutável e eterna: o Salvador, por sua humanidade
como por uma corrente misteriosa, deve enlaçar os homens. elevá-los e os reconduzir ao Pai.
51. Hasteemos a bandeira do Coração de Jesus e a simplicidade de nossa fé reacenderá os fracos,
pois que este sinal sagrado traz consigo a esperança.
52. A Igreja não tem o direito de fazer do Estado o seu feudo, mas, enquanto religião de
direito natural, deve indicar ao Estado qual é o último fim do homem e da sociedade e os meios gerais para
atingi-los; e, enquanto religião verdadeira e revelada, deve voltar-se para a sua missão de libertadora.
53. A Igreja reconhece o direito a tudo o que é verdadeiro e honesto, mas não se opõe à
tolerância de que o poder público, às vezes, faz uso com relação a coisas contrárias à verdade e à justiça,
para evitar um mal maior, que seria o de privar o povo de toda a liberdade.
54. Eu quis contribuir para a reabilitação das massas populares por meio do reinado da
justiça e da caridade cristãs. Gastei nisto boa parte da minha vida.
55. Se as injustiças de nossa sociedade não são pecado então não existe nenhum pecado!
56. Unamo-nos dentro da constituição, para recolocar a vida da nação na corrente cristã.
57. A sociedade é de direito natural. É quase uma imagem da vida trinitária de Deus.
Contra o cesaropapismo do Estado totalitário é preciso afirmar que a sociedade existe para o bem do indivíduo,
e não vice-versa. O Estado deve promover o bem comum, mediante uma ação organizada de assistência, de serviços
públicos, proteção dos direitos e da liberdade individual e coletiva.
58. O Estado deve fazer aquilo que os indivíduos não conseguem fazer; deve deixar os indivíduos
fazer aquilo que conseguem fazer; e ajudar a suprir, dentro do princípio de subsidiariedade, no ensino e na
assistência pública; deve também favorecer a descentralização e a criação de associações e cooperativas em
defesa dos fracos.
59. A anarquia não consegue entender que a autoridade existe para proteger a liberdade de todos.
60. Em si, todas as forças de governo seriam boas, se não fosse o que se faz para depois,
deturpar os objetivos com que se começou a governar.
61. A questão do capital e do trabalho se resolve por leis cristãs e a solução se aplica
igualmente a todos os tempos e a todas as formas sociais. A lei cristã referente à posse e ao uso das riquezas
é iluminada pela passagem do evangelho. que torna obrigação ser pobre de espírito. A pobreza em espírito do
rico rende abundantes frutos e torna suas obras de caridade responsáveis e o preserva da tentação de ser
injusto. Por essa caridade ele procura erguer casas para os doentes e para os velhos. Pelo zelo da justiça
ele escapa de todos os abusos da usura e da opressão. O indigente é pobre em espírito. quando contempla.
sem inveja nem ódio apaixonado. os bens que não recebeu em partilha. O pobre e o rico. contudo. são iguais
na sublime igualdade de filhos de Deus (Cad. 5, p. 496).
62. A agitação socialista não é Como se pretende fazer crer. a conseqüência de uma simples
questão de estômago. J: umA questão de justiça. de moral idade social e de igualdade. Foi a violação das leis
de justiça social e a infração dos direitos naturais da associação que provocou o mal-estar entre as classes
operárias. É também uma questão de dignidade. O povo se cala, mas conserva no coração um sentimento de
dignidade que nem a miséria apaga. Honra. fraternidade. humanidade é coisa que os pobres sabem entender.
No fundo, esta agitação é uma questão filosófica e teológica. Ela atinge a finalidade da sociedade e o
relacionamento entre as classes sociais. as relações comerciais e o contrato e trabalho.
63. Pe. Dehon em "Por que não sou socialista:"O socialismo quer me colocar numa casa construída
com o fruto do meu trabalho, casa que ele administrará e da qual me expulsará quando bem entender.
- Eu quero morar numa casa construída com o suor do meu rosto, mas da qual ninguém poderá me expulsar.
- O socialismo quer me obrigar a ser benfeitor da humanidade às custas do meu trabalho, emprego que ele
administrará e no qual me admitirá se lhe aprouver.
- Eu não quero ser reduzido ao papel de assistente social involuntário.
- O socialismo quer me obrigar a pôr meus filhos em escolas pagas com o meu trabalho e o meu dinheiro onde ele
instruirá e educará meus filhos à sua imagem. E eu prefiro escolher a escola dos meus filhos, mesmo que tenha
que pagar as anuidades.
- O socialismo quer me obrigar a passar minha velhice num asilo, construído e administrado com o meu dinheiro,
onde serei alojado sem que eu nem meus filhos optemos por isso. E eu prefiro passar minha velhice em paz, junto
de meus filhos, em ambientes que eu escolhi.
- O socialismo quer me dar a vocação à carreira que lhe agrade, fazer-me trabalhar e medir o meu pão, tirar-me
o meu Deus, a minha família e a minha liberdade. (PE. DEHON, Manual Social Cristão, Paris, 1894, pp. 102-103).
64. A democracia cristã tem como programa a Encíclica sobre a condição dos operários e exige,
na vida social, leis e instituições favoráveis aos trabalhadores, na vida política uma ascensão progressiva do
povo e sua progressiva participação na administração pública.
65. E que ninguém se atemorize por eventuais desordens que poderiam surgir entre o povo
embriagado pela liberdade. De resto o que é mais inconveniente: um pouco de agitação. na qual o caráter do
povo se tempere, ou a apatia das massas da época das monarquias absolutas?
66. A agitação socialista não é, como pretende-se fazer crer, a conseqüência de uma simples
questão de estômago. É uma questão de eqüidade moral e justiça. Pior do que um lobo na jaula. o povo aceitará
uma corrente, desde que tenha o que comer à sua mesa...
67. O futuro da democracia é certo. Seu reino virá conosco ou contra nós. E, se queremos que
Cristo reine, é melhor- que nenhum grupo político nos supere na preocupação pelo bem do povo.
68. O ideal deles (marxistas)"" é aquela vasta máquina coletivista que fará da terra uma prisão
de cidadãos-escravos, que trabalharão sob a batuta de vigias. tendo apenas lembranças da liberdade.
69. Quando o Deus Estado nos tiver concedido este nivelamento, seremos todos iguais. mas
será uma igualdade de rejeição.
70. Precisamos de uma reforma legislativa que satisfaça as justas aspirações do povo e que
faça desaparecer o quanto possível os motivos de seus legítimos protestos e lamentos. Tal reforma deve se
r exigida com todos os meios à nossa disposição: imprensa, conferências, parlamento. São, pelo menos, doze metas
a serem perseguidas:
- reconhecimento jurídico do direito de associação;
- que o descanso festivo seja universal e protegido por lei;
- que o contrato de. trabalho tenha uma legislação especial, com garantias formais e precisas para todos os
direitos dos operários;
- que um código do trabalho regule o dia normal de trabalho, as condições de trabalho noturno, o trabalho da
mulher e das crianças;
- que o salário mínimo seja previsto e julgado pelo fórum competente;
- que se reprima a usura e a agiotagem, as falcatruas, as sonegações, os trustes e coisas desse gênero;
- favorecer seguros sociais de todo o tipo;
- facilitar organizações operárias e a defesa dos direitos do trabalho;
- a pequena propriedade deve ser favorecida e ajudada;
- que se construam casas operárias acessíveis aos operários;
- que o balanço do Estado seja livre de incrustações parasitárias;
- que se vigie a atividade das seitas ou sociedades secretas.
71. Direitos do operário:
- direito de tender ao próprio fim;
- direito de praticar livremente uma religião:
- direito de exigir, nas fábricas, a lei moral e a higiene;
- direito à participação nos bens da fábrica;
- salário familiar.
72. O operário conhece a greve, mas conhece muito pouco as verdadeiras associações,
permanentes, refletidas,
sábias e fecundas (Manual Social Cristão).
73. É preciso conscientizar os pobres de que os sindicatos e a associação são os meios mais
seguros de atingir
a liberdade a que aspiram.
74. O .direito à propriedade é um direito natural, mas o direito ilimitado de propriedade é
pagão e ateu.
É preciso renunciar. ao direito de propriedade diante da. extrema necessidade dó próximo. É preciso partilhar
com os necessitados aquilo que não necessitamos.
75. A primeira esmola que se deve ao proletário é seu justo salário...
76. É do plano divino que o homem encontre no trabalho um meio de satisfazer as exigências
físicas e morais
da vida; e o meio de angariar o suficiente para os dias de infortúnio, doença ou desemprego.
77. O salário de um trabalhador não pode nunca ser de um só indivíduo: deve ser familiar.
Se é pessoal,
não se pode contudo esquecer que é pago a uma pessoa que tem uma família sob seu sustento.
78. Sem o trabalho, as coisas úteis e agradáveis ou não existiriam ou não serviriam.
79. O trabalho .tem um valor criativo, redentor, libertador, expiatório, preventivo, social
e moral.
Infelizmente por vezes o trabalho reduz o operário a um autômato, desedução e o embrutece, porque não é
levado a sério como força moral e social.
80. Toda a injustiça na troca de valores, seja em dinheiro, seja em trabalho, é uma usura.
O patrão que paga
salário baixo comete pecado de usura.
81. Há uma usura moderna que não é um simples interesse comum, mas um amontoado de especulações
que leva o
capitalista a violar a lei de igualdade na troca e abusar da necessidade, da fraqueza e da boa vontade do
próximo para satisfazer a sua febre de lucro.
Propunha:
82. - Uma diminuição da jornada de trabalho, para que o operário tenha tempo de desenvolver,
de maneira normal.
o seu corpo e o seu espírito.
- Que ao menos durante o aprendizado se evite uma excessiva e exclusiva especialização, de
forma que o operário conheça toda a sua profissão e não só os detalhes.
- Que se organize o trabalho, de maneira que o operário não se torne presa da exploração e da concorrência
injusta.
- Que o trabalho seja licitamente conquistado e licitamente utilizado.
- O lucro é lícito, mas tem um limite, porque acaba quase sempre em opressão e injustiça (L'usure aux temps
présents).
83. Estas pobres famílias habitam em choupanas de chão batido e cobertas de ramagens com um
só cômodo, nenhum
móvel, um colchão de capim; e um só para toda a família. Para alimento algumas batatas...
84. A maior parte das pessoas trabalham fiando algodão. Mulheres e filhas são empregadas como
bobinadoras.
Catorze a quinze horas de trabalho por dia. Os salários? Um homem recebe de 1,50 a 3 francos, as mulheres
de 0,90 a 1,25 francos. Os filhos e as crianças de 0,50 a 1,25 francos. Mas o alimento de um operário sai
mais ou menos a 0,75 francos, o de uma mulher a 0,65 francos. O salário aumenta ou abaixa de acordo com os
acontecimentos. É como o preço dos escravos. Não há nenhuma instituição que proteja o operário. A velhice,
a doença, o grande número de filhos aumentam a fome e a miséria da família.
85. O trabalho dessa gente é humilhante. O calor nos ambientes de trabalho é tão forte que o
fio que ali se
fabrica é mais fino. Chega a 37 ou 40 graus. Sexo e idade é misturado na mesma atmosfera estufante.
86. Daí já se pode imaginar a situação moral Crianças e moças de 15 anos envolvidas com bebida
e coisas bem
piores, que não preciso descrever. A condição desses operários é pior do que a dos escravos da antiguidade
que eram, pelo menos, um pouco parte da família do patrão. Aqui nem isso acontece.
87. Em todos os corações reina, não sem graves motivos, o ódio contra a sociedade atual, com
antipatia pelo
patrão e o descontentamento contra o clero, que nada faz por eles.
88. O salário em Saint Quentin aumenta ou abaixa de acordo com o capricho da situação, como
o preço dos escravos. Nenhuma instituição para proteger o trabalhador. Nove entre dez, dentre os industriais,
não tem nenhuma noção dos deveres de um patrão (Cad. 5, p. 483).
89. Os operários perdem, na fábrica, todo o contato com o patrão, porque o operário não tem
diante de si senão
um ser abstrato: a companhia.
90. E, enquanto o pai e a mãe se consomem em dez ou doze horas de trabalho nas indústrias, os
filhos vagam
pelas ruas onde, precocemente, com más companhias, aprendem os caminhos do vício e da revolta. No seu espírito
vai se formando o espírito de anarquia de amanhã.
91. Pode-se dizer que ninguém da classe operária freqüenta Igreja. Nenhum sentimento nobre é
ensinado a essa
gente magnífica, nem pelo padre nem pelo patrão.
92. Não se iludam: o povo não tem mais medo de ser escravo. Ele se deixará seduzir pela
pregação marxista,
porque, em troca da liberdade perdida, pelo menos terá duas refeições diárias, enquanto hoje sofrem uma
irremediável fome.
93. O operário frente ao capitalista é a fraqueza diante da força...
A IGREJA COM QUE DEHON SONHOU
94. Primeiro remédio da reforma social: a Igreja, pois só esta tem a capacidade de reconciliar
ricos e pobres
na caridade; só ela demonstrou através dos séculos que, apesar dos erros cometidos, tem uma doutrina capaz de
realizar a reconciliação entre as pessoas. A fé verdadeira é a única que nos liberta de todas as tiranias e a
que promove todo o progresso.
95. O padre ganhará o coração dos fiéis fazendo uso dos instrumentos de progresso social
que promovem a justiça,
tal como associações, sindicatos e congêneres.
96. Reza-se e pede-se voluntários; recita-se o pai-nosso, - oração ensinada por Nosso Senhor;
mas ela continua
uma letra morta. Diz-se alto e bom som: "Que o vosso nome seja santificado", mas não se santifica o nome dele.
Exclama-se: "Venha a nós o Vosso Reino" e, contudo, o que se promove é o reino da matéria. Deseja-se: que a
"Vossa vontade se faça", mas percebe-se que o que conta é a própria vontade.
97. Quanto a mim, declaro haver tomado parte em muitos congressos no espaço de 25 anos.
Sempre os considerei
retiros espirituais.
98. Leão XIII assinala os intoleráveis males de que sofrem os trabalhadores. Não os apresenta
como fatalidades
e sim como injustiças sociais e pessoais. Ele não apenas pede aos católicos que apaguem essas injustiças pela
caridade. Ele exige que elas sejam suprimidas. A Encíclica (R.N.) não é um simples convite a que demos esmolas:
ela estabelece e traça' as linhas prioritárias dos direitos do trabalhador em. base aos princípios cristãos.
99. Se ela diz, no fim, que a solução social virá de uma maior efusão da caridade, todo o
contexto indica que
ela fala da caridade no sentido lato da palavra, isto é: a que começa com o cumprimento da justiça.
100. É preciso ir ao povo. Porque ele é infeliz, porque ele sofre, porque ele está num estado
de miséria
imerecida, porque está sem apoio não tendo mais as suas antigas corporações e sindicatos. Como se faz para
ir ao povo? Pela palavra e pelas obras, pela palavra pessoal e pela palavra pública, pelas associações
religiosas e pelos jornais. É preciso ir à sua casa e à sua fábrica.
Mas isto não é tudo. Não basta levar-lhe a palavra. É preciso ocupar-se de seus interesses temporais.
Leão XIII não se contenta em indicar o caminho: insiste que isto deve ser feito depressa e estimula nossa
apatia. Que cada um se meta à tarefa que lhe cabe e sem demora. Adiando o remédio o mal se tornará incurável.
Falar é bom, agir é melhor. A vitória será de quem agir mais.
101. Amemos o povo, defendamo-lo que na hora oportuna ele nos rodeará e tomará nossa defesa.
102. É hora de agir. É hora de deixar de lado as discussões bizantinas. Não se trata de buscar
um
novo programa. Façamos congressos mas não somente para discutir sobre o espírito com que se deve agir.
Mas também para decidir alguma ação.
103. Nosso Senhor para ganhar as almas também curou os corpos, nutriu no deserto os famintos
e encheu de peixe a rede dos pescadores. A Igreja não tem mostrado suficiente zelo pelos interesses materiais
dos povos mediante a ação de muitos de seus pontífices e hierarcas? Não. foram seu_ monges que criaram cidades,
plantaram, secaram pantanais; criaram hospitais? Não foram seus missionários médicos, agricultores e até
inventores?
104. Cada amigo do Coração de Jesus deve reproduzir este divino coração de uma maneira
especial e distinta, segundo as suas possibilidades e como a graça o Inspira, mas sobretudo viva nele o
Coração de Jesus. Este coração que ama, se imola e não deixa jamais de se doar.
105. Coração que, é verdade, é também o de um homem, mas não deixa de ser o coração de Deus.
106. Coração que não deixou um momento de se empenhar por nós,
e que é o mais perfeito de todos os corações oblatos e vítimas de amor.
107. Leão Dehon falando aos seminaristas sobre alguns monsenhores que combatiam o
envolvimento social da Igreja:
- O fato é que estes valentes senhores são muito velhos. Sim, isto mesmo. Velhos demais. São no mínimo
cinqüenta anos mais velhos que Leão XIII. Não se deixem perturbar, meus caros seminaristas, pelos devaneios
de uns dois ou três velhos abades. Estão atrasados pelo menos uns três quartos de século. E freqüentemente
matraqueiam como vovozinhas descontentes. Vocês tem o Papa ao seu lado. E é isto o que lhes basta.
Com justiça o Congresso de Taranto o aclamou como o mais jovem dos papas (Dorrestein, pp. 364-365).
108. Procuremos socorrer as misérias e os sofrimentos corporais desses infelizes.
São esses sofrimentos que os afastam do pensamento da salvação e os mantêm na blasfêmia e no desespero.
109. O povo é bom mas se deixa enganar facilmente. O sacerdote precisa conscientizar o
operário e ensiná-lo a fazer uma escolha livre. Sem o coração do Salvador isso é impossível.
110. Se vocês querem estar à altura da sua missão devem estudar os problemas sociais do
nosso tempo.
111. Recordo-me de um bom diretor de seminário Que me dizia durante minha juventude:
O padre deve ser encontrado apenas no altar, no confessionário, no leito dos enfermos. Fiquem ali.
Se me escutarem nunca passarão dos limites...
112. O mal de nosso tempo é a timidez, a frouxidão, o laxismo e o desespero.
Não se viu em tempo algum algo que se parecesse com o respeito humano que tomou conta de nossa sociedade.
Percorri imensas regiões da Ásia, da Europa e da África. Por toda a parte se reza e por toda a parte se
manifesta a fé. Mas, na França, a religião é um fantasma que assusta.
113. O papa tenta acordar do letargo a nossa geração desunida e desconjuntada.
Quer fazer reflorescer a paz no seio desta França que um dia foi chamada de Nação Nobilíssima.
E espera que ela volte a ser um baluarte de Deus. E que possa contribuir para salvar o cristianismo na
luta que se trava contra a civilização. Leão XIII é um novo papa Urbano pregando uma cruzada contra uma
nova barbárie. (Les Diréctions Pontificales, 1897).
114. Vejo alguns bons padres que ainda esperam a salvação de um "clic" vindo do céu,
por meio de algum personagem extraordinário na França ou na Itália. Mas não creio que se deva alimentar
esta vaga esperança. É preciso ao invés lutar e ir para o meio do povo, fazendo tudo como se tudo
dependesse de nossa atividade junto deles. Só depois disso Deus nos ajudará como ele o sabe fazer.
115. Ir ao povo é voz do Papa, dos bispos, dos teólogos, dos bons cristãos.
dos pensadores conscienciosos, mesmo que não sejam dos nossos. O momento é propício.
116. Está chegando o dia em que a Igreja tratará dos seus interesses não mais
com os que governam, mas sim com o povo.
117. Ir ao povo será a nossa cruzada contra a escravidão econômica.
A vitória será o prêmio para quem mais se envolver com o povo.
118. O povo é fiel à Igreja, embora em muitas ocasiões pareça ter sido esquecido por ela.
Ele sempre acaba voltando quando a Igreja redescobre seu lugar junto a ele.
119. Ação pelo povo feita pelo povo. Isto é apostolado de Igreja.
120. A salvação do povo tem que vir do próprio povo.
121. A Igreja ama os pequenos por que é compassiva.
Os peque nos amam a Igreja porque são gratos.
122. A Igreja precisa do povo, por que a caridade e o
apostolado sofrem quando não são comunicados.
123. O papa (Leão XIII) pede e exige este novo catolicismo e estes novos católicos,
não porque haja algo a ser mudado na doutrina católica, mas porque há muita coisa a ser desenvolvida e
atualizada. aplicando-se seu conteúdo de acordo com as realidades de tempo e lugar.
124. Nós não trazemos novos princípios, mas sim os princípios antigos em linguagem
nova e com as deduções que nosso tempo reclama (Gad. 44, pp. 18-19).
125. Diante da impiedade revolucionária, todo cristão deve ser um sacerdote.
Nosso escopo é a salvação da sociedade por" meio da associação cristã. Precisamos de apóstolos
leigos de seleção, saídos de todas as classes sociais... O apostolado dos leigos se tornou uma necessidade,
um dever para a Igreja de Cristo.
126. Se tenho que dar um conselho aos cristãos dos nossos dias e a todos os sacerdotes,
então será este de não ficarem alheios – como ficam os demais - às questões sociais... esta devia ser a
nossa paixão dominante, fora de toda política, ambição ou recriminação.
127. A pesca milagrosa não se faz na sacristia, mas no alto-mar.
128. Que a Igreja se envolva na corrente social e terá frutos de renovação da sociedade.
129. Hoje não basta mais um apostolado espiritual. Temos que nos atirar também ao
aposto lado de transformação social.
130. A Igreja deve formar almas piedosas, mas também almas capazes de praticar a justiça e
viver por ela.
131. A Igreja precisa de almas que se imolem, como precisa da santa missa, porque ela
vive do sacrifício de Jesus Cristo continuado por essas duas maneiras.
132. Os ministros de Cristo deveriam ser os defensores da justiça, da fraternidade e da
igualdade social. O padre precisa intervir na causa social não por oportunismo e para converter os operários,
mas por um dever de justiça e caridade e por uma rigorosa exigência do seu ministério pastoral.
133. O jansenismo nos tornou tímidos e pusilânimes, e nos levou a fugir da vida pública.
Não agimos mais. Sem sabê-lo estamos enfermos de um liberalismo econômico, político e moral. E o pior é
que acreditam ter lido nos evangelhos que Jesus fez o que estão fazendo... Dizem eles: como homens,
contentemo-nos com esperar... (Manual Social Cristão, p. 159).
134. Se a maioria de um país adota a república, os católicos errariam retirando-se para
as suas tendas ou ficando na oposição de maneira irreconciliável. Fariam com isso o jogo de uma seita
política e não' o de sal da terra.
135. Senti a dor de ouvir até as populações simples e nativas de algumas regiões do
Oriente dizer com um tom de escândalo: A França é um povo que não crê mais em Deus. E o pior em tudo
isso é o desespero dos melhores que dizem: Não há mais nada que se possa fazer... Isto não tem mais conserto...
136. Como vigário: Isto é absolutamente contrário a tudo o que eu desejava desde tantos anos:
uma vida de recolhimento e de estudos. "Fiat".
137. Eu tinha para esse gênero de ministério (paroquial) a maior repugnância, mas não me
dei por vencido. Teria preferido o silêncio, a obediência do convento, a pobreza, o estudo.
138. O último vigário coadjutor é em geral o mais sobrecarregado com escolas.
No catecismo paroquial eu tinha as crianças das escolas leigas e precisava segui-Ias depois da escola.
Fazer patronatos. círculos. Ia encontrar minha vocação de fundador de obras e propagandista da ação
social nesse trabalho...
139. Como último vigário auxiliar eu tinha muitas missas em horários avançados,
enterros de quinta classe, casamentos de quarta classe. Missa do meio-dia aos domingos.
Meus dias eram bem completos. Assistir aos enterros, levar os mortos ao cemitério, coisa que me tomava muito
tempo, catecismo na igreja e nas escolas, visitas aos doentes, preparação de sermão. J:ramos
7 para 30.000 almas.
140. (Naquele natal) fiz um verdadeiro sermão social. Todos os espíritos estão preocupados
com a situação da França: assim, procurei mostrar que a França tinha sido castigada porque tinha se afastado
dos ensinamentos e do exemplo de Belém (Cad. 5, p. 488).
Meu discurso tinha sido conforme a verdade (diria ele 15 anos mais tarde): tudo o que eu disse em particular
sobre o mundo dos negócios e do trabalho, Leão XIII acabaria dizendo em suas encíclicas. Eu penso portanto hoje
que talvez não o devesse ter dito naquele tom. Eu era padre novo e era o meu primeiro grande sermão numa
paróquia. Talvez eu não devesse ter começado com uma mercurial sobre os costumes da sociedade local.
Eu estava muito sob a influência de L'Univers. E creio que podia generalizar isto dizendo que hoje o padre
vive mais de sua renda própria do que dos bens da Igreja (Cad. 5, p. 488).
141. Tudo restava ainda por fazer, mas muitas vezes estava só. A organização das nossas
paróquias grandes não permite ao clero fazer apostolado. Quando nossos sacerdotes assistem aos funerais,
seu tempo e sua atividade estão quase esgotados. Desta maneira viveremos muitos séculos sem refazer uma
sociedade cristã.
142. Paróquias de 30.000 almas são uma situação anormal. O clero se ocupa de quem os procura.
O resto vive no paganismo (Cad. 5, p. 485).
143. Estou demasiadamente ocupado em Saint Quentin. Tenho obras demais ali.
No seminário sentia a atração da vida contemplativa e me habituara a ela. Sofro com a agitação atual.
O pensamento de fugir da sobrecarga acompanha-me diariamente. Sinto que eu não poderia conservar suficientemente
a vida interior que adquirira no seminário. Eu quereria a todo custo ser religioso.
144. Fazíamos muito. mas isso não era nada em comparação com o que tinha que ser feito
(Cad. 5, p. 482).
145. A organização de nossas grandes paróquias não permite ao clero fazer o apostolado como
deveria. Após haverem alguns padres acompanhado um enterro, seu tempo já se foi quase todo. Com este sistema
de trabalho pode-se viver por muitos séculos sem recristianizar a sociedade (Prelot, p. 62).
146. O apostolado dos leigos é um dever e uma necessidade da Igreja.
147. Se deve se acreditar nas estatísticas oficiais tudo vai excelentemente bem em Saint
Quentin. Sobre quarenta mil almas trinta e cinco mil são católicas e um pequeno grupo de protestantes e
israelitas.
148. Só doze pessoas são classificadas como "sem religião". Mas... nas páscoas não se
distribui mais que 8.000 comunhões.
149. Há quinhentos mortos por ano e um entre cada cinco mortos morre sem assistência
sacramental. Seiscentos nascimentos e apenas um em cada cinco é legítimo. Estamos portanto longe das
estatísticas oficiais. É preciso entrar em contato com os que estão longe da Igreja.
OS NOVOS PADRES, SEGUNDO LEÃO DEHON
150. A teologia é a ciência das ciências. Há pessoas que preferem ciências humanas ou
literatura. É uma pena, porque não entendem o que é a teologia.
151. Os dogmas são o coração dos estudos sagrados. Quanto mais a gente os estuda. mais
se fortifica a moral. Se a formação dogmática do sacerdote é forte, seu papel de moralizador será
eficientíssimo. Penso que é preciso dar um grande espaço para o dogma na formação moral do sacerdote,
como se faz em Roma.
152. É preciso também rezar pelos padres e viver, na medida do possível, buscando a
santificação deles. A Igreja costuma endereçar a Deus esta oração: "Enviai o vosso Espírito e tudo será
criado e renovareis a face da terra". Ora, o Espírito Santo está sempre sendo enviado.
Não é isto o que está fazendo falta. O problema é que nem sempre o recebemos.
153. Jesus Cristo tem sede de padres com coragem de ser santos.
154. Nunca nos faltarão os meios para atingir a santidade. O que é preciso é ter uma
fé viva e verdadeira.
155. Jesus não nos pede ações espetaculares. Alguns padres quiseram entregar-se a tais
ações e acabaram se perdendo. O mal desse tipo de mentalidade é que acaba levando à busca da própria glória
e autopromoção.
156. Somos pequenos e falíveis, mas nossa boa vontade e nossa simplicidade nos aproximam
muito mais de Jesus do que a busca do espetacular e do espalhafatoso.
Dehon falando ao Jovem clero:
157. Se certos nobres conhecessem os vossos sonhos de apostolado junto ao povo tremeriam
de desespero. Algum padre mais velho que vós vos chamaria de desiludidos e utópicos. Algum piedoso leigo
gemeria de dor ante tanta temeridade. Essa gente não consegue imaginar que um padre sirva para alguma coisa.
além de visitas a doentes e funerais. Depois se admiram que o povo compare o padre a uma ave agourenta.
Ide aos que vivem. Ide aos homens e não passareis, nunca mais, por aves agourentas
(Manual Social Cristão, p. 175).
158. Não vos deixeis intimidar, caros seminaristas, pelo diabo que cavalga o dorso de dois
ou três velhos curas e cônegos. Estão atrasados três quartos de século, e às vezes deliram. Deve levar a
luz no meio das trevas; ele que é a luz do mundo.
159. O padre e o leigo comprometido são o sal da terra e a luz da vida social.
Eu por mim, penso que é preciso ir mais aos homens que às mulheres e às crianças se se quer mexer
com as estruturas da sociedade. Jesus agrupou um grupo de homens e algumas mulheres.
Não se limitou às crianças e às mulheres.
160. Nós, sacerdotes, somos amantes apaixonados do progresso.
161. O sacerdote deve ser o homem dos estudos e das obras sociais.
162. O sacerdote deve intervir no movimento social atual, não só por um oportunismo
que seria bastante justificado, mas por estrito dever de justiça e de caridade, para cumprimento
rigoroso das funções de seu ministério pastoral.
163. A ação social é, para o sacerdote, supremo dever.
164. Um homem que pretende mudar a sociedade não pode ter idéias tímidas.
165. Uma vocação privilegiada requer grande fidelidade.
166. O sacerdote restringe por demais suas atividades e, não indo além da sacristia,
nem da Igreja, perdeu o contato com os homens, aos quais quer salvar. Urge, pois, que ele saia deste
estado e se interesse pela felicidade mesmo material da população.
167. Acusamos certos padres de excesso de atividade; mas eu pergunto: não seriam os
outros padres culpados de excesso de pouco trabalho?
168. Alguns padres são desconhecidos, porque se fazem desconhecer escondidos nas suas
sacristias.
169. A situação social atual muitas vezes se torna causa de pecado.
O padre precisa lutar contra estas causas.
170. Não se ocupem só de senhoras, velhos e crianças, doentes e pobres.
171. Não levem a sério os que dizem: não há outro caminho. É a regra. é a lei.
Assim fazia Jesus...
172. Esses piedosos padres viram crescer o mal, assistiram à apostasia de um povo inteiro
e... criaram associações para mocinhas.
173. Eis a que chegou a ilusão dos piedosos defensores do status quo: viram o mal crescer,
assistiram a apostas ia de todo um povo e criaram associações de mocinhas...
174. Se vocês são padres, alguns confrades mais velhos que não conheceram senão os métodos
antigos, os considerarão como sonhadores de utopias, os piedosos leigos e as devotas gemerão sobre a vossa
temeridade.
175. Esta gente fabulosa não vê com prazer os indiferentes dizer-nos que a religião é
boa para mulheres, velhos e crianças. mas sem o perceber faz tudo para que se diga isto.
Não conseguem entender que um padre possa se envolver com outra coisa além de visitas a doentes ou
enterrar os mortos. Preferem que o povo nos veja como coveiros ou abutres ou aves de mau agouro.
Ir aos vivos que devemos ir. Ir ao povo que devemos ir se não queremos passar por aves de mau agouro.
A CONGREGAÇÃO DOS PADRES SCJ
176. Fundei uma Congregação muito imperfeita; pedi misericórdia por mim, para que eu possa
salvar a minha alma. Deus escolheu-me para fundar uma obra, e eu me tornei indigno, com tantos pecados,
falhas e imperfeições...
177. Senti que tomei a cruz nas costas, quando me ofereci a Nosso Senhor como sacerdote
reparador e como fundador do novo instituto.
178. O fim da Congregação é procurar a glória de Deus, mediante a devoção ao Sagrado Coração
de Jesus.
179. A adoração reparadora é a nota característica da nossa Congregação.
180. Os padres do Sagrado Coração de Jesus não podem se contentar com a observância da
pobreza exterior, é necessário que tenham o espírito de pobreza, o gosto e o amor da pobreza se deveras
quiserem tornar-se interiores e levar uma vida de amor e imolação.
181. Os sacerdotes do Sagrado Coração hão de viver e morrer como verdadeiras vítimas do
Sagrado Coração.
182. O "ecce venio" é a máxima favorita dos sacerdotes do Sagrado Coração e das almas
reparadoras.
183. Deveríamos ter muitas casas de vida contemplativa.
184. Peço todos os dias a Maria que faça reviver entre nós as grandes graças das origens.
Que ardente amor a Jesus e a Maria havia nas nossas casas do Sagrado Coração de Fayet, de Sittard!
Era um amor devorador e absorvente que se testemunhava de todas as maneiras: com as visitas freqüentes
à Eucaristia, com os cantos, com o pensamento contínuo em Nosso Senhor. Que caridade recíproca reinava então!
Como os Superiores eram amados! Como nos amávamos mutuamente! Enfim, que abundância de vocações surgiam então
e quantas outras se preparavam! Este período mostra-nos o que deve ser o Reino do Coração de Jesus...
(Dos "Extraits", p. 124).
185. Sinto cada vez mais vivo o desejo, e tenho a esperança, de dar a Nosso Senhor a adoração
reparadora sacerdotal bem organizada... Quando tivermos, mesmo uma só capela de adoração bem organizada,
a Obra tomará a sua forma e possuirá uma fonte de vida e de graça. Então poderei cantar de bom grado o meu
"nunc dimittis" (1888-17/4). Sem a adoração, a nossa Obra não cumpre a sua missão (1893-24/6).
186. A minha última palavra será ainda para vos recomendar a adoração quotidiana,
a adoração reparadora oficial, feita em nome da santa Igreja, para consolar Nosso Senhor e para apressar
o Reino do Coração de Jesus nas almas e nas nações (Test. Esp.).
187. A nossa querida Obra é verdadeiramente reparadora na sua finalidade, nas suas
Constituições, nas suas práticas, em todo o seu ser. As nossas ConstitUições apresentam-nos precisamente
esta finalidade especial. Acrescentamos aos nossos votos uma fórmula de oblação, fazemos a adoração
reparadora nas nossas casas. (1910-131/26).
188. As decisões a tomar serão ditadas pelos conselhos do Papa
(referia-se à audiência de Pio X a 21.2.1912) e pelas nossas Constituições.
Temos uma tríplice finalidade: - zelo apostólico ardente,
- adoração reparadora,
- oferta quotidiana de nós mesmos ao Coração de Jesus.
189. Zelo ardente: gostamos de trabalhar pelas almas, no ensino, na pregação,
nas missões, segundo as necessidades da Congregação e onde nos coloca a obediência.
As Constituições indicam-nos as obras que devemos preferir: ensino às crianças,
especialmente jovens seminaristas que, como Samuel, são os prediletos do Bom Deus;
pregação de exercícios espirituais; apostolado entre os pequenos e os humildes,
entre os operários e os pobres; e as missões longínquas que exigem dedicação e sacrifício.
190. Adoração reparadora: temos que mantê-la! É a nossa vocação.
Devemos ser como os amigos de Betânia, juntos dos quais Jesus repousa... (cf. também SI. Deh. 8, p. 71).
191. Oferta quotidiana de nós mesmos ao Coração de Jesus:
é requerida pelas Constituições e pelo ato de oblação que se ajunta aos votos.
É a oferta quotidiana, cordial e sincera de nós mesmos, das nossas ações, dos nossos trabalhos,
dos nossos sofrimentos, em espírito de sacrifício e de imolação, em reparação ao Coração de Jesus e pela
salvação das almas (circ. Pe. Dehon, Ed. Deh., pp. 365-366).
192. Referindo-se à desaprovação vinda de Roma à Sociedade dos Oblatos do
Coração de Jesus que ele fundara: Nosso Senhor me pede agora que eu destrua o que me pediu que construísse.
Não posso nem por um instante me revoltar contra isso. Seria mil vezes insensato.
Não posso dizer outra coisa senão "fiat". Faça-se a vontade dele.
Isto dói tanto que a morte doeria mil vezes menos. Tudo foi destruído. A honra, os recursos,
as esperanças e mais algumas coisas que nem posso mencionar. Mas o que mais me tortura é o pensamento do
qual não me posso libertar: Jesus queria esta obra. Eu talvez a tenha destruído por causa de minhas
infidelidades.
193. Obrigado, ó meu Jesus, pela grande dádiva que me fazes, de poder sofrer contigo e por ti.
Eu me aplicarei em carregar com alegria esta cruz suprema.
194. Tentações de desencorajamento me assaltam: mas tenho devotado ao Coração do Bom Mestre um
amor confiante e, lançando-me aos seus pés, ouso achegar-me ao seu Coração.
195. Após as primeiras emoções, pronuncio o meu "fiat". As provações são graças...
Eu me entrego nas mãos de Jesus. De um lado, Jesus se mostra extremamente bondoso,
enviando-me as consolações mais doces e animadoras. A minha confiança na Santíssima Virgem cresce dia a dia.
De outro lado Jesus é bondoso, purificando-me... Aceito com amor o martírio que me purifica.
Tenho confiança na ressurreição e na vida; espero a visita de Jesus.
A esperança continua. Jesus me sustenta e me prepara maravilhosamente para a sua obra.
O estado atual parece de morte; mas a ressurreição virá breve. seguida do pentecostes,
e então as graças serão abundantes e a obra se desenvolverá. Eu vos agradeço, ó meu Jesus,
pelas graças que me fazeis, fazendo-me sofrer convosco e por vós.
196. Não me resta outra coisa a fazer senão orar com aquela confiança do santo homem Jó!
197. Talvez Deus queira tomar-me tudo quanto me dera; que sua vontade seja feita.
198. Monsenhor, Vossa Excelência sabe que eu fundei o Instituto dos Oblatos do Sagrado Coração
de Jesus com o único escopo de fazer a vontade de Deus e de promover a sua glória.
199. Eu não intentei fazer uma obra de consolação, sem reparação.
Eu jamais intentei fazer outra coisa, senão uma obra de reparadores e de vítimas: é a nossa missão.
(11 de agosto de 1925).
200. Fundei uma congregação muito imperfeita.
Peçam misericórdia por mim a fim de que minha alma seja salva.
Deus me escolheu para fundar uma obra e eu me tornei indigno por tantos pecados, faltas e imperfeições.
Mas sei que Deus me perdoará.
201. Na medida que posso, eu vos entrego a todos ao Coração de Jesus.
Recomendo-vos à sua misericórdia, e dirijo-lhe a oração que Cristo fez ao Pai em benefício dos seus discípulos:
"Meu Pai, conservai aqueles que me destes".
202. Caríssimos filhos, deixo-vos o mais maravilhoso tesouro: o Coração de Jesus.
Ele é de todos, mas tem ternura particular pelos sacerdotes que são a ele consagrados e que se
dedicam ao seu culto, ao seu amor e à reparação que ele pediu: contanto que sejam fiéis a esta bela vocação.
203. A obediência, a regularidade, a pobreza são a salvaguarda de uma Congregação.
204. Sejamos daqueles corações que Nosso Senhor deseja: corações não divididos,
dispostos a sacrificar tudo, a sofrer tudo, a arriscar tudo, a renunciar a tudo, e, enfim, a dar
a própria vida... pela glória de Deus, por amor ao Coração de Jesus, pela salvação da humanidade.
205. A minha última recomendação é para vos recomendar a adoração quotidiana, a
adoração reparadora oficial, feita em nome da Igreja para estabelecimento do Reino do Sagrado
Coração nas almas e nas nações.
A REPARAÇÃO: SEU IDEAL!
206. Um coração para amar, um corpo para sofrer e uma vontade para sacrificar.
207. Deveríamos ser como os amigos de Betânia junto aos quais Jesus costumava descansar.
208. Onde não há ordem também não existe virtude.
209. Esta é a virgem prudente que o Senhor encontra à sua espera.
Nosso Senhor nos encontrará vigilantes e fiéis quando tivermos o costume de, a todo o momento, ter nossos
pensamentos e intenções e aspirações dirigidas para o objeto de nosso amor. Esta é a disposição da esposa
no Cântico dos Cânticos: "Eu durmo, mas meu coração vigia". Portanto, mesmo que o corpo esteja ocupado
com alguma coisa, que se liberte; mesmo que se utilize do repouso a que tem direito, o coração e a
vontade estejam dirigidos para Nosso Senhor que é nosso fim último e o centro de tudo para nós.
210. É preferível passar por desconhecido, inexperiente e ingênuo do que correr o
risco de abandonar nosso bem amado Pai.
211. Adquirem-se graças com cruz.
212. A cruz que mais pesa não é a que buscamos. mas a que vem dos homens ou dos acontecimentos
da vida. Uma vítima de amor sabe que não tem escolha.
Deve pura e simplesmente imolar-se sem lamentos e sem preferência.
213. Procurar sempre a pureza de coração, mais do que as graças que dela emanam.
214. É preciso preparar a paz por meio do sofrimento e do retorno a Deus.
215. As provas são graças.
216. Se me consola, agradeço-o; se me coloca na provação, agradeço-o ainda, porque a
provação reforça e purifica.
217. Insisto menos nas mortificações pessoais, por considerá-las necessárias,
mas recomendo mais o abandono paciente às provas que Nosso Senhor nos mandar.
218. Aceito com amor o martírio que purifica.
219. O amor me basta acima de tudo, me ajuda a humilhar-me, a penitenciar-me,
a seguir os conselhos da perfeição, a manter-me unido com Nosso Senhor.
220. Perseveremos na oração, no louvor, na ação de graças, na paz de Deus; paz que
supera qualquer sentimento e que é o fruto de abnegação e do sacrifício, paz que o mundo não conhece
porque não ama a cruz.
221. O orgulho se tem em demasiada estima, para deixar a Deus e ao próximo a parte que lhes
toca.
222. Uma pessoa que, ligada pelo voto de obediência, negligenciasse cumprir perfeitamente
os seus compromissos, estaria inutilmente no mosteiro.
223. Obedecer é possuir o espírito de Jesus Cristo.
224. No Calvário, Maria recebeu esta grande lição que não foi senão o reflexo da vida inteira
de Jesus: não basta levarmos a cruz apenas exteriormente e à força, mas é preciso abraçá-la com amor,
coragem e alegria, desejá-la com ardor, como sendo o maior e o mais seguro tesouro.
225. A primeira coisa a fazer para chegar à perfeição é uma vigilância pacífica sobre si mesmo;
a segunda, é agir com tranqüilidade em todos os atos.
226. A vida interior conserva-se pelo silêncio, recolhimento e espírito de oração.
227. Não basta levar a cruz externamente e por necessidade. É preciso abraçá-la com amor,
levá-la com coragem e alegria, desejá-la com ardor como o tesouro maior e mais seguro.
228. A cruz é tão necessária, que Jesus tem feito dela a medida da nossa glória.
229. As cruzes carregadas com coragem são fontes de graça para todas as nossas obras,
e para todas as almas que nós recomendamos ao Senhor.
230. Muitas almas, na prática do puro amor, vão procurar o sol à meia noite, enquanto
é tão simples. Nosso Senhor nos ensinou a oferecer, antes de tudo, a Deus a homenagem do puro amor e depois
pregá-lo aos nossos necessitados.
231. Jesus veio para completar a obra de reconciliação. Por que então levou uma longa vida
de quase trinta anos desconhecido e aparentemente inativo e inútil? Foi para obedecer em tudo o plano de Deus.
A redenção era uma promessa que também dependia de tempo marcado. E ele cumpriu toda a justiça.
232. Maria é um modelo de vida oculta e de silêncio. É um jardim especial aberto em especial
a Jesus, a José e aos anjos.
233. A humildade é o fundamento de todas as virtudes: o homem humilde é levado à fé.
pois que reconhece a fraqueza da sua razão; terá facilmente o espírito de abnegação, de pobreza. de obediência.
234. Geralmente o sintoma mais ominoso duma consciência prestes a arruinar-se é a falta de
franqueza para com aqueles que têm o dever de a dirigir.
235. A cruz é um dom de Jesus.
236. A santidade consiste na união com Deus e a conformidade à sua vontade.
237. Não temamos nada, também quando não compreendemos os desígnios de Deus.
238. Uma vítima sabe que não tem mais nada a escolher ou desejar para si; a sua escolha
está feita, a sua sorte está fixada. Portanto. nada de inquietações, nem cálculos. nem perturbações ou reservas.
239. Devemos escolher: ou queimar eternamente no fogo do amor divino, ou queimar
eternamente no fogo do inferno.
240. O silêncio é um dos meios mais fecundos da perfeição.
241. A língua é freqüentemente um cavalo indomado, a ser refreado por meio da razão.
da prudência, do silêncio.
242. A caridade e a verdade foram as duas paixões da minha vida.
243. Quem dá sempre e a toda hora, demonstra maior benevolência e bondade do que
aquele que de tempos em tempos dá uma soma importante.
244. Grande virtude é portar-se sempre de maneira a não ser um fardo para o próximo.
245. Quereria que nada ficasse da minha própria vontade, mas que essa fosse toda absorvida
e vivificada da vontade de Deus que vive em mim.
246. Jesus nos deu o exemplo mais perfeito de uma vida de amor e de imolação.
Marchou resoluto em seu caminho para o holocausto e tornou praticável para todos os seus seguidores
encontrar um coração que amasse em plenitude. Quem mais dolorosamente sofreu do que este coração?
Não era sua vontade a do Pai celeste? O "Eis que venho" não era a sua regra de vida?
247. Em Belém Jesus não encontrou um lugar na hospedaria. Hoje o Espírito
não encontra um lugar nos seguidores de Jesus, inclusive no coração de cristãos consagrados.
Esta mos todos tão cheios de coisas terrenas que, para nos libertarmos delas seria necessário coragem.
O respeito humano, a moleza, a tibieza, os apegos desordenados, a sedução dos sentidos, o cansaço, a
insatisfação. o horror à cruz sob qualquer forma que venha, estes são os principais obstáculos à vinda
do Espírito Santo.
248. O Sagrado Coração de Jesus, princípio e objeto do nosso amor, é praticamente toda a
teologia. O Cristo que amou. Deus, encarnação, redenção, Igreja, graça e sacramentos: o Cristo me amou...
249. Tu amarás. Tu amarás teu Deus e teu próximo como a ti mesmo. Eis toda a moral.
250. Há corações que conhecem o amor de Jesus e correspondem. Mas o seu número é
desoladoramente pequeno comparado aos que não querem conhecer nem entender e aos que se contentam em
parecer discípulos e amigos dele. Por essa injustiça que lhe é feita é que nós assumimos o compromisso
de amar por aqueles que não amam. E a isto chamamos de reparação.
251. O espírito de sacrifício e imolação não deve estar apenas no doar o coração a Deus.
É preciso acompanhar este dom com atividades que o tornem completo. Este espírito de imolação torna as
obras mais fecundas e capazes de conquistar as almas e os corações.
252. Sem o espírito de amor e imolação as mais espetaculares e grandiosas obras
perdem a sua razão de ser.
253. As obras e os atos exteriores são agradáveis a Nosso Senhor. São certamente
meios eficazes de conquista e, realmente, dão glória a Deus, mas é bom lembrar que estes meios não devem
ser confundidos como um fim em si mesmo. Há pessoas que dedicam toda a sua atenção aos meios e consagram
todos os seus esforços a eles e acabam deixando de lado o fim que almejavam.
254. Uma vítima do Sagrado Coração é uma pessoa que está unida ao sacrifício de
Cristo para os fins comuns e muito especialmente para expiar com Jesus os pecados do povo e ajudar a
reparar por um amor fervoroso a indiferença e ingratidão dos homens.
255. Fiz tudo por puro amor para com o Sagrado Coração de Jesus.
256. Há uma arte em ser vítima: o segredo desta arte é o abandono
(a arte do abandono é a arte de amar: Coussode).
257. É mister que o culto ao Sagrado Coração de Jesus. Começando na mística das almas,
desça aos povos e penetre na vida social. Trará um soberano remédio às enfermidades cruéis do nosso mundo moral;
pois, o reino do Sagrado Coração é eminentemente oportuno.
258. Só o Coração de Jesus pode restituir à terra a caridade que ela perdeu.
Só ele readquirirá o coração das massas, o coração dos operários, o coração dos moços.
Esta nova conquista de corações começou, evidentemente, com o Reino do Sagrado Coração.
259. Jesus não se sacrificou a si mesmo, mas deixou-se sacrificar.
260. Não se deve considerar a devoção ao Sagrado Coração como uma espécie de
fácil cristianismo... mas antes como uma devoção heróica e generosa, que em verdade atrai as
almas pela doçura do amor a fim de praticar, em toda plenitude, as virtudes varonis da vida cristã.
261. Eu me coloco novamente à disposição de um ardente amor ao Sagrado Coração.
Para mim é o único caminho pelo qual posso caminhar à vontade. É o meu caminho, a minha vocação.
262. O amor divino é o próprio objeto desta devoção, juntamente com o coração de carne.
O símbolo ou imagem do Sagrado Coração é o meio apto para recordar-nos este amor infinito que se revelou.
263. O Coração de Jesus deve ser o nosso lugar de repouso, nossa luz, o nosso amor,
o nosso altar e a nossa vítima.
264. Só com o coração se reparam as feridas do coração.
265. O Coração de Jesus, princípio e objeto de nosso amor, é toda a teologia.
266. Os corações que Jesus Cristo deseja são corações não divididos.
São os que conseguem sacrificar, se preciso, tudo e conseguem assumir tudo e sofrer tudo,
renunciar a tudo. e até mesmo dar a própria vida para ver o triunfo do amor.
267. Vivamos com toda religião para com Deus, toda santidade para conosco,
toda justiça para com o próximo, e com toda a sobriedade para com as criaturas.
268. O perfeito abandono nas mãos de Deus é a verdadeira adoração em espírito e verdade.
269. Se há um arrependimento que se impõe, uma reparação indispensável,
é quando pomos o nosso orgulho face à humildade do Coração de Jesus.
270. As almas reparadoras são como o coração do Corpo Místico,
o órgão da Igreja para se imolar à glória de Jesus Cristo.
271. Para pertencer a Jesus não basta morrer à vida dos sentidos pela
prática da mortificação generosa e contínua, é necessário ainda morrer a si próprio por meio da abnegação
interior.
DEHON E O "REINO DO CORAÇÃO DE JESUS"
272. O Reino do Sagrado Coração de Jesus é eminentemente oportuno...
O culto do Sagrado Coração não é para nós uma devoção qual. quer, e sim, uma profunda renovação de
toda a vida cristã. Só o Coração de Jesus poderá restituir à terra a caridade perdida.
Só o Coração de Jesus reconquistará o coração das massas, o coração dos operários, o coração da juventude.
273. Seu "Eis que venho" não acabará no limiar da eternidade: no céu como no seio de Maria,
como sobre o Calvário como na Eucaristia, é sempre "Eis que venho", e se ele não é mais vítima de sofrimento
e de humilhação, é, todavia, vítima de glória e de amor.
274. Ele, o menino Jesus, foi uma pequena vítima, que nos ensinou a imolação como o
caminho da graça e da salvação.
275. O Coração de Jesus é um coração de filho, por conseguinte, um coração amante e
dependente por amor.
276. O Coração de Jesus se compraz na vontade de seu Pai e isto que seu Pai quer nunca
deixa de ser bom.
277. Jesus quer um lugar de consolação e de repouso nos nossos santuários, nas nossas casas,
nos nossos corações. Para tanto é necessário que reinem entre nós, com a vida interior. a paz e o recolhimento.
278. Ofereço e consagro a minha vida e a minha morte ao Sagrado Coração de Jesus pelo seu
amor e segundo todas as suas intenções.
279. Jesus pede corações que tenham a firme vontade de amá-lo acima de tudo,
e que estejam prontos a sacrificar tudo por este amor.
280. Tudo por vosso amor, ó Coração de Jesus.
281. Seriam quantas as almas a quem Nosso Senhor amou com amor puro e desinteressado?
Quantas almas consagradas a quem ele cumula diariamente com seus benefícios e que, apesar disso não mostram
reconhecidas e pensam muito pouco nele, passando o seu tempo ocupadas consigo mesmas e com suas satisfações
corporais e espirituais, ou quando se ocupavam muito das criaturas acabam por compactuar com elas.
282. E quando se ocupavam de Nosso Senhor, quando por exemplo o fazem aos domingos, fazem
isto com intenção pura e sobrenatural?
283. O reino do Coração de Jesus é eminentemente oportuno.
284. Como o coração físico no corpo humano, o Sagrado Coração é o motor e
regulador da vida no corpo místico da Igreja.
285. Deus é amor. O Verbo, sendo Deus, é Amor. Fazendo-se homem concentra
todo o seu amor em um Coração humano, (Essa era a concepção que o Pe. Dehon tinha a respeito do
Sagrado Coração de Jesus).
TRÊS ANEDOTAS QUE REVELAM QUEM ELE ERA
286. Dizia dele uma senhora:
"Não posso admitir de maneira alguma a política religiosa socialista do Pe. Dehon.
Os padres foram feitos para rezar, batizar, assistir aos enfermos e administrar os sacramentos.
Não conte ele com minha cooperação" .
287. Havia um padre que costumava rezar missa muito baixinho.
Padre Dehon chegou-se um dia a ele e lhe disse:
- Esta manhã alguém me disse que não assistiu a santa missa. O que você acha que ele deve fazer?
O padre respondeu:
- Deve confessar-se.
E Pe. Dehon lhe disse:
- Acontece que a culpa é sua, meu caro padre.
- Como assim? Retrucou o padre.
- É que aquele religioso não ouviu nada da missa que você celebrou.
288. Um dia numa casa da Itália, em época de grande carestia, Pe. Dehon estava cansado
e com a saúde combalida. Os tempos eram difíceis. Tanto isto é verdade que se comia muito pouco.
Pe. Dehon calava-se, mas seu estômago dava sinais evidentes de rebelião. Um dia,
saindo no jardim com o reitor e com o ecônomo topou com uma vaca magra e esquelética saboreando a
grama e olhando-os de soslaio. Observou:
- Olhem só a coitadinha. Olha-nos assim atravessado porque pensa que estamos comendo a sua ração...
SEUS ÚLTIMOS DIAS
289. Sinto-me triste no fim da vida;
não tenho correspondido a todas as graças que recebi.
290. É Nosso Senhor que fez tudo pela obra, eu tenho sido o obstáculo, e, muitas vezes,
coloquei tudo em perigo.
291. Minha vida não irá mais muito longe. Escreve em 1915, outubro. Eu acreditei que
morreria na noite passada. Já tive um acesso violento de bronquite sem poder parar. Estufava. Estava
estrangulado. Pensei que faltava bem pouco para o fim. A medida em que se aproxima o grande dia sinto
o peso de todos os meus pecados e a pobreza de minhas obras. Minha esperança repousa no fato de que Deus
é misericordioso.
292. Bateu palmas de alegria quando lhe ofereceram a chance de receber os sacramentos e os
santos óleos e disse "Sim, sim: de todo o coração".
Ao morrer:
293. Bem: Tenho percorrido as 14 estações da via-sacra de manhã à noite e da noite ao
amanhecer.
294. Perto do seu leito havia um santinho mostrando o Coração de Jesus e João reclinado
sobre ele, disse aos presentes:
- Eis aí o meu tudo. Minha vida, minha morte, minha eternidade.
295. Por ele vivi, por ele morro.
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